[RESENHA] Quem tem medo do Feminismo Negro?


Olá pessoal, mais uma resenha para vocês, dessa vez de "Quem tem medo do Feminismo Negro?", de Djamila Ribeiro. O texto é da minha amiga Jemima, que já publicou a resenha no blog pessoal dela. Sem mais enrolação, fiquem com o texto dela.

O olhar mais profundo, as células que multiplicam o câncer do racismo e machismo.

Iniciando a leitura do livro “Quem tem medo do Feminismo Negro” por Djamila Ribeiro, eu já esperava nadar por águas conhecidas e desconhecidas. Sendo filha de uma māe branca e pai negro, e nascendo com a pele clara quase branca, pude desfrutar de certos privilégios, como o de ninguém me fazer sentir minha cor como errada ou outras coisas que se passam quando se tem pele mais escura. Ainda assim, quando saí da cidade que nasci e fui para outro estado e especialmente quando fui morar no exterior, passei por coisas desagradáveis mas que hoje sou extremamente grata por poder ter me acordado para ver um problema que tem sido ignorado em nosso país e no mundo, especialmente em países que passaram pelo processo colonial escravagista. 

Como a autora afirma, o futuro da nossa humanidade depende de não negarmos o direito de humanidade a ninguém. Negue esse direito a uma pessoa, e todos nós corremos perigo. Passando as primeiras páginas do livro, a autora nos ajuda a ter uma vista geral sobre sua infância, adolescência e vida adulta e os desafios de uma mulher negra em um país com a herança do colonialismo. Fiquei pensando quão difícil deve ser crescer sendo obrigado a ser consciente de si mesmo, pior que isso, ter outros tentando te convencer que sua existência é algo inconveniente. 

Fiquei pensando nas minhas amigas que são negras, e fiquei pensando como lidavam com isso na sua infância, ou como minha amiga se sentiu quando tive que ler, em voz alta na classe, Monteiro Lobato e a boneca Emília desumanizar e ser racista com Tia Anastácia. Lembro de me sentir hesitante, de me sentir desconfortável lendo aquilo. Tentei fingir que não ligava, e que não via que isso me afetou, mas nunca esqueci aquela leitura. E ao mesmo tempo só fui entender o meu desconforto depois de adulta. E é isso que a autora nos introduz, a argamassa que constrói e solidifica a estrutura do racismo no Brasil e também no mundo. Sinceramente deviam tomar cuidado com Monteiro Lobato nas escolas… mas nisso eu divago… voltando ao assunto.

A verdade é que quando você lê um livro como de Djamila Ribeiro, você não só pensa sobre a vida e ideias que a autora tem a passar, mas que isso te faz refletir sobre sua vida, e sobre pessoas na sua vida que vives ou conheces. E isso te faz refletir sobre o mundo que vivemos. A verdade é como Djamila falou:
“ Pensar a prática de mulheres negras me fez perceber o quanto isso era importante para restituir humanidades negadas.”
O que me fez lembrar, de outra memória do racismo estrutural que testemunhei no Brasil quando criança. Numa mesa de um restaurante de café da manhã, no interior do Amazonas, estava sentada com minha família. Enquanto isso, a duas mesas de distância da minha, uma menina da minha mesma idade sentada no colo de um homem. Lembro dos meus pais comentarem algo sobre aquela menina não ser filha deles, e de como eles falaram que a situação era tão comum na região que estávamos. Só depois fui entender porque uma menina de 13-14 anos, negra, estava sentada com uma mesa só de homens, com o olhar baixo e triste. E com a expressão universal de vergonha.

A maior razão que penso que as pessoas tem medo de investigar as mazelas sociais atuais é pelo fato que ninguém quer ser responsável por isso. Estudar sobre feminismo é assustador para alguns porque ninguém quer de verdade aceitar o fato de que sim, você pode ter sido machista. Do mesmo fato que falar de racismo é um tabu no Brasil e acredito que no mundo porque ninguém quer ser dito um racista. A verdade na verdade é que assim como Djamila Ribeiro mostra em suas muitas peças escritas em diferentes tópicos sobre o feminismo negro é que sim, em algum ponto de sua vida você pode ter sido machista e racista. Isso te põe em culpa por seguir os parâmetros de uma sociedade afetada pelo racismo e machismo estrutural, mas a pior culpa não é ter errado.

A pior culpa é fechar os ouvidos, os olhos, os sentidos para ouvir a perspectiva do outro. A pior culpa é ter seu valor em dependência da opressão do outro e simplesmente descartar ouvir o outro, interrompendo-o com “blá, blá, blá… mi, mi, mi… comentário desgraçado”. Eu amei a leitura de “Quem tem medo do Feminismo Negro?”. Eu amei porque eu pude pensar a fundo sobre o assunto, ver o mundo sobre as lentes do outro. Infelizmente o outro do outro. Eu recomendo a leitura do livro porque foi desconfortável aceitar que coisas terríveis e tristes ainda acontecem. Lembre-se, o mais importante não é a culpa, mas a consciência de que precisamos quebrar o simulacro que a nossa sociedade está bem do jeito que está.

É reconhecer o ensino do valor e direito à custa do outro. Não precisa ser assim. Negar a leitura deste livro é ruim porque em essência é insistir em viver na matrix de um mundo que, para se ter valor, precisa negar a humanidade do outro. E acredito que com certeza podemos fazer é ser melhor que isso.

Basta ter coragem e fazer a coisa certa. Leia o livro e tire suas próprias conclusões do que quer dizer feminismo negro.

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