[TRECHOS] A guerra não tem rosto de mulher — Parte 3


Bom dia Divagadores... É, eu sei... Vocês devem estar cansados de ver trechos deste livro por aqui, mas que culpa eu tenho se ele é simplesmente MA - RA - VI - LHO - SO, sem contar emocionante, é claro? Não sabe de que livro estou falando? Então clique aqui e leia a resenha que eu fiz sobre ele. Não viu nenhum dos trechos que eu publiquei anteriormente? Então vem conferir a parte 1 e a parte 2 e juro que está é a parte final. Preparados? Então lá vamos nós.

Eu sonhava com o amor. Queria uma casa e uma família. Que a casa cheirasse a crianças pequenas. As primeiras fraldas eu cheirei, cheirei, não me cansava nunca. Cheiro de felicidade. Felicidade de mulher. Na guerra, não há cheiros femininos, são todos masculinos. A guerra tem cheiro de homem.
Isso me deixou estupefata, e até agora penso nisso, na grandeza do coração dessa mãe. Em um momento de dor tão imensa, quando estavam enterrando seu filho, ela ainda teve coração para chorar pelo filho dos outros… Chorar como fossem seus…
Você acha que era fácil perdoar? Ver casinhas com telhado, inteiras… brancas… Com rosas… Eu mesma queria que eles sentissem dor. Claro… Queria ver as lágrimas deles… Não ia ficar boa de uma hora para outra… Correta e boa. Tão boa quanto você agora. Ter pena deles. Para isso, precisei que algumas décadas se passassem…
Aprendi a atirar, jogar granadas… Instalar minas. Prestar primeiros socorros…
Mas por quatro anos… Durante a guerra esqueci todas as regras de gramática. Todo o programa escolar. Podia desmontar um fuzil automático com os olhos fechados, mas escrevi minha redação para ingressar na faculdade com vários erros infantis e sem vírgulas. O que me salvou foram minhas condecorações militares e me aceitaram no instituto. Comecei a estudar. Lia os livros e não entendia, lia poemas e não entendia. Tinha esquecido aquelas palavras.
Papai voltou com condecorações importantes, eu trouxe uma ordem e duas medalhas. Mas a nossa família ficou assim: a heroína principal era minha mãe. Ela salvou a todos. Salvou a família, salvou a casa. A guerra dela foi a mais terrível. Meu pai nunca mais usava nem ordens, nem fitas, ele tinha vergonha de se exibir na frente da minha mãe. Ficava sem jeito. Minha mãe não tinha condecorações.
Ainda tem gente viva, vá e pergunte. Para nossa história, minha menina, precisamos de mais centenas iguais a você. Para descrever nosso sofrimento. Nossas lágrimas incontáveis. Minha menina querida…
Meu bem… Não pode existir um coração para odiar e outro para amar. O ser humano só tem um, e eu sempre pensava em como salvar meu coração.


Acabou-se o que era doce, ou não... Quem sabe, muito em breve, eu faça algumas postagens no Facebook com estes e outros trechos que não entraram nas postagens do blog. Quem sabe... Como disse em algum lugar por ai, do jeito que sou enrolada, melhor não prometer nada.

Vou ficando por aqui, beijinhos e até a próxima.

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