[TRECHOS] A guerra não tem rosto de mulher — Parte 2


Bom dia Divagadores, olha eu aqui novamente para trazer mais trechos deste livro que sou muito, mas muito suspeita para falar. Para quem não se lembra temos no blog a resenha dele e também a parte 1 de seus trechos que postei aqui na semana passada. Vamos conferir mais algumas passagens emocionantes desta coletânea de relatos?



Levou dezenas de anos para a famosa jornalista Vera Tkatchenko escrevesse sobre nós no jornal central Pravda, sobre o fato de que também estivemos na guerra. E sobre haver mulheres combatentes que ficaram sozinhas, que não reconstruíram a vida e até hoje não tem um apartamento. Tínhamos uma dívida com essas santas mulheres. Então, passaram a prestar um pouco de atenção às mulheres que lutaram no front.
Entrei na seção de comunicações, de uma unidade antiaérea. Servi no ponto de controle, e talvez tivesse sido telefonista até o fim da guerra se não tivesse recebido a notificação da morte de meu pai. Não tinha nada no mundo mais importante para mim que meu amado pai. Era a pessoa mais próxima de mim. A única. Comecei a pedir: “Quero me vingar. Quero acertar as contas pela morte do meu pai”. Queria matar… Queria atirar…
Ficávamos caladas feito peixes. Não confessávamos para ninguém que tínhamos lutado no front. Mantivemos ligação entre nós, trocávamos cartas. Depois de trinta anos começaram a nos homenagear… Convidavam para encontros… No começo nos escondíamos, não usávamos nem medalhas. Os homens usavam, as mulheres não. Os homens eram vencedores, heróis, noivos, a guerra era deles; já para nós, olhavam com outros olhos. Era completamente diferente…
Dois anos atrás veio me visitar o nosso chefe do estado-maior, Ivan Mikháilovitch Grinkó. Faz tempo que se aposentou. Se sentou nessa mesma mesa. Também assei umas tortas. Ele e meu marido conversaram, se lembraram… Começaram a falar sobre nossas meninas… E aí desandei a chorar: “Vocês falam sobre honra, de glória. Mas essas meninas estão quase todas sós. Solteiras. Morando em apartamentos comunitários. Quem teve pena delas? Quem as defendeu? Onde vocês foram parar depois da guerra? Traidores!”. Enfim, estraguei o clima da festa deles.
Eu me lembro dos sons da guerra. Ao seu redor tudo troveja, retine e treme por causa do fogo… A alma de uma pessoa envelhece durante a guerra. Depois da guerra, nunca mais fui jovem… Isso é o mais importante. É o que eu acho.
Chegou uma garota… Eu não sabia cortar o cabelo dela. Tinha uns cabelos exuberantes, ondulados. O comandante passou no abrigo:
“Faça um corte de homem.”
“Mas ela é uma mulher.”
“Não, ela é um soldado. Vai voltar a ser mulher depois da guerra.”
Cada vez mais, o mundo da guerra revela para mim um lado inesperado. Antes, eu não me fazia essas perguntas: como era possível, por exemplo, passar anos dormindo em trincheiras inacabadas, ou ao lado de uma fogueira na terra nua, usar botas e capote e, por fim, não rir, não dançar? Não usar vestidos de verão? Esquecer dos sapatos e das flores… E elas tinham dezoito, vinte anos! Estava acostumada a pensar que não há lugar para a vida feminina na guerra. Ali, ela é impossível, quase proibida. Mas eu estava enganada… Bem depressa, já na época dos primeiros encontros, notei: não importa do que as mulheres falassem, até mesmo da morte, sempre se lembravam (sim!) da beleza, que aparecia como uma parte indestrutível de sua existência.
O primeiro-tenente era muito bonito. Todas as meninas eram um pouco apaixonadas por ele. Dizia para nós que durante a guerra precisavam de soldados, e apenas soldados. Eram necessários soldados… Mas também queríamos ser bonitas… Durante toda a guerra tive medo de que mutilassem minha perna. Eu tinha pernas bonitas. Para um homem, e daí? Não é tão terrível, mesmo perder uma perna. Ele será um herói do mesmo jeito, um noivo! Mas se uma mulher é mutilada, seu destino está decidido. Destino de mulher…
“Mas você não disse que esteve no front.”
“E você perguntou?”
Ele ficou envergonhado. Não conseguia me encarar. E ele mesmo tinha voltado da guerra…
“Por que está tão surpreso?”
“Nunca teria imaginado que você esteve no Exército. Uma garota do front, entende…”
“Quer dizer que está surpreso porque estou só? Sem marido nem grávida? Não uso casaco acolchoado, não dou baforadas no cigarro Kazbek e não falo palavrões?”
Não deixei que ele me acompanhasse.
Sempre tive orgulho de ter estado no front. Defendi minha pátria…

E então, o que acharam destes trechos? E se eu falar que não acabou ainda? Calma, muita calma... Juro pra vocês que é apenas mais uma parte que será postada aqui, na semana que vem.

Beijinhos e até a próxima.

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