[TRECHOS] A guerra não tem rosto de mulher — Parte 1


Bom dia Divagadores, como tem passado? Na segunda eu postei a resenha do livro que para mim foi a melhor leitura de 2018. Caso não tenha visto a resenha você pode conferir clicando aqui. Vou pedindo desde já que sejam muito pacientes comigo: A guerra não tem rosto de mulher é um livro com um conteúdo tão rico e emocionante que no momento da leitura eu separei uma quantidade enorme de trechos que foram marcantes para mim. Agora reli cada um dos trechos para separar os melhores, mas sabe quando tem muita coisa à ser dita? Pois bem, mesmo comigo reduzindo bem a quantidade de trechos, ainda sobrou um número considerável de coisas e por isso vocês verão mais de uma postagem com trechos deste livro por aqui. Deixamos as explicações de lado e vamos ao que realmente interessa.



A guerra é um sofrimento íntimo demais. E tão infinito quanto a vida humana…
No centro, sempre o fato de não querer e não aguentar morrer. E é ainda mais insuportável e angustiante matar, porque a mulher dá a vida. Presenteia. Carrega-a por muito tempo dentro de si, cria. Entendi que para as mulheres é difícil matar.
Como uma pessoa fica a sós com a ideia absurda de que pode matar outra? Inclusive, de que é obrigada a matar. E descobriria que na guerra, além da morte, há uma infinidade de outras coisas, há tudo aquilo que existe na vida cotidiana. A guerra é vida também. Me depararia com uma quantidade incontável de verdades humanas. Mistérios. Refletiria a respeito de perguntas de cuja existência eu não teria suspeitado antes. Por exemplo, por que não nos espantamos com o mal; falta em nós espanto diante do mal?
E não foi de uma vez… Não foi de uma vez que conseguimos. Isso não era coisa de mulher: odiar e matar. Não era nosso… Era preciso se convencer. Se persuadir…
Os velhos têm medo da morte, já os jovens riem dela. São imortais! Eu não acreditava que podia morrer…
Agora assisto os filmes sobre a guerra: uma enfermeira na linha de frente anda arrumadinha, limpinha, não usa calças de algodão e sim uma saia, a boina em cima do topetinho. Ah, não é verdade! Por acaso íamos conseguir arrastar os feridos se andássemos assim? Não fica muito bem arrastar de sainha quando todos a sua volta são homens. E, para falar a verdade, só nos deram saia no fim da guerra, como farda de gala. E só aí recebemos também calcinhas em vez de roupa de baixo masculina. Não sabíamos onde nos meter de tanta felicidade. Abríamos a guimnastiorka para que ficasse à vista.
O combate terminou à noite. E de manhã caiu uma neve fresca. Sob ela, os mortos… Muitos traziam as mãos erguidas para o alto… Para o céu… Pergunte para mim: o que é felicidade? Eu responderei… Talvez seja encontrar, entre os mortos, uma pessoa viva…
Pois eu vou dizer outra coisa… O mais terrível na guerra, para mim, era usar cueca. Isso sim era um horror. E para mim era um pouco… Como expressar…? Bem, em primeiro lugar é muito feio… Você está na guerra, se preparando para morrer pela pátria usando cueca. Quer dizer, com uma aparência ridícula. Absurda. Naquela época se usavam cuecas compridas. Largas. Feitas de cetim. Havia dez garotas na nossa trincheira, todas de cueca. Ah, meu Deus! No inverno e no verão. Durante quatro anos.
Se formos lembrar a história, em todos os tempos as mulheres russas não se limitam a se despedir dos maridos, irmãos e filhos, sofrer e esperar por eles. Até a princesa Iaroslávna subia nos muros da fortaleza para jogar alcatrão quente sobre a cabeça dos inimigos. Mas nós, os homens, tínhamos um sentimento de culpa quando as mulheres combatiam, e fiquei com isso.
Para os homens era mais fácil se adaptar a tudo. Àquele cotidiano de asceta… Àquelas relações. Nós sentíamos saudade, muita saudade, de nossas mães, do aconchego. Tinha uma menina de Moscou conosco, Natachka Jílina, ela foi condecorada com uma Medalha por Bravura e, como incentivo, foi mandada para casa por alguns dias. Quando voltou, nós a farejávamos. Literalmente, formávamos uma fila e cheirávamos, dizíamos que ela estava com cheiro de casa. 

O que vocês acharam destes trechos? Será que conseguiram sentir uma parte da emoção que eu senti ao ler este livro? Será que ficaram curiosos para saber mais sobre a história destas corajosas mulheres?Em breve eu voltarei aqui com mais alguns trechos para que vocês possam apreciar e se emocionar.

Beijinhos e até a próxima.







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