[TRECHOS] Bruce Dickinson: Uma Autobiografia


Bom dia Divagadores, como andam as coisas por ai? Tudo certo e nada resolvido? Na terça-feira eu trouxe para vocês a resenha do livro Bruce Dickinson: Uma Autobiografia e disse que em breve voltaria trazendo alguns trechos para vocês. Olha o milagre feito, eu voltei até que bem rápido para fazer esta postagem.

Deixando a palhaçada de lado, vamos aos trechos que mais mais gostei do livro... Venham conferir aqui comigo.
— Para início de conversa, você sabe que a vaga é minha ou nem teria me procurado. Em segundo lugar, o que vai acontecer com o Paul, o atual vocalista? Ele sabe que vai ser demitido? Terceiro, quando o posto for meu, e será, você está preparado para o estilo totalmente diferente e para opiniões, para alguém que não vai ser um cordeirinho? Posso ser um pé no saco, mas é pelas razões certas. Se não quiser, me diga agora e vou embora.
Meu discurso foi uma combinação de abobrinhas, injustiça, má disposição para dormir no chão, bravata e genuína astúcia. Se o Iron Maiden queria brincar com o martelo dos deuses, como fiz a música do Led Zeppelin, então que viesse com tudo. Senão, que dessem o fora e fossem atrás de alguém mais entediante. Como diz o ditado, cuidado com o que você deseja, pois você pode acabar conseguindo.
Se eu tivesse de escolher um personagem de O Ursinho Puff para mim, tenho certeza que seria o Tigrão com o seu entusiasmo sem fim. Assim eu saltitava pela escada instável que levava ao escritório do primeiro andar e me apresentava:
— Novo vocalista apresentando-se para labuta, senhor.
Smallwood não estava nem aí.
— Vá vestir uma porra de roupa decente. Está parecendo um roadie.
— Não é tão fácil, né? — Ele sorriu. — Ronnie Dio teve o mesmo problema em “Heaven and Hell”.
Minha cabeça, que doía, e meus olhos, que doíam, começaram a prestar muita atenção.
— Como assim?
— Bom, ele chegou com a mesma atitude que você. Vamos dar conta dessa aqui logo. E eu disse pra ele: “Não. Você tem que resumir sua vida inteira nesse primeiro verso. Ainda não estou ouvindo isso.”
Eu conheço a música, claro. O verso de abertura.
— Sua vida inteira está naquele verso — disse Martin. — Sua identidade como vocalista.
Ao aparecer uma rachadura na represa que eu mesmo erguera, a inundação ocorreu. O muro que ergui era meu ego. Todo mundo precisa de um, em especial se você pretende conquistar milhões de fãs do rock, mas não se deve trazê-lo para o estúdio. Ali dentro, é a música que possui você, como um filme que se descortina à sua frente. Tudo o que faço é cantar as palavras que pintam o quadro. Achei que o teatro da mente fosse invenção minha, mas Martin Birch já fazia aquilo havia anos.
Se você convidar um tigre-dentes-de-sabre para tomar chá, não fique surpreso se ele o comer. Não se deve levar para o pessoal; é apenas o que eles são.
Raramente prestava atenção à seção “Pensamentos do dia”, mas naquele dia eu li. Era uma citação do escritor Henry Miller: “Todo crescimento é um salto no escuro, um ato espontâneo não premeditado que damos em benefício da experiência.”
E assim, naquele momento, decidi sair do Iron Maiden. Pode culpar o Henry Miller.
Em um momento que nunca mais saiu da minha mente, uma das crianças mais velhas deu um salto e bateu palmas — ratatá — na direção do grupo mais próximo. As crianças caíram no chão, se fazendo de mortas. As palmas eram o som da morte — de metralhadoras e atiradores. Então o grupo seguinte também caiu, e logo todas as crianças pequenas jaziam no chão de braços abertos, congeladas como a morte. Paramos de tocar, estupefatos. As crianças se levantaram e riram com gosto. Aquilo me fez perceber o quanto uma coisa boba como uma batida de palmas pode ser pervertida e subvertida pela realidade dura de uma zona de guerra.
Observei os rostos de meus colegas de banda. Acho que foi Eddie Casillas quem falou. Eddie era o carpinteiro que jamais formara uma gangue. Eddie tinha a casa segura perto do qual marginal algum brigava. Eddie era a rocha e tocava baixo como uma rocha.
— Cara, você tem que voltar. O mundo precisa do Iron Maiden.
O pós-atentado foi um sonho lento e surreal. A carnificina horrenda do Marco Zero em contraste com o calmo e pacífico centro da cidade; milhares de pessoas simplesmente caminhando ao sol em contraste com as sirenes. Vi caminhões de bombeiros atravessarem a Oitava Avenida em disparada na direção da cena do atentado. Os bombeiros estavam completamente marrons e cinza, cobertos das cabeças aos pés com sujeira tóxica do prédio. Na sarjeta jazia um ursinho de pelúcia de uma criança, também sujo de poeira, largado em uma poça de água que vazava das mangueiras do caminhão de bombeiros. Seus olhos costurados pareciam dizer: “Toda minha inocência se foi.”
— Recebi um laudo atestando que você tem um câncer na cabeça e no pescoço — disse ela, sem rodeios. Fui pego de surpresa pela abordagem tão decidida. Resolvi rebater.
— Ok. Como é que é isso? Onde está? Por quê? E como a gente se livra? — retruquei. Ela gostou da minha postura.
— É, até que você está encarando bem.
— Posso rolar no chão e mastigar o carpete se você preferir, mas vamos logo com isso.
A caminho do pub, refleti sobre como me sentia a respeito do câncer. Ninguém tinha resposta para a pergunta “Por que eu?”. Na verdade, concluí, provavelmente é só um azar do cacete. Não havia ninguém querendo me liquidar e meu câncer era uma aberração. Pensei em odiá-lo, mas não sou bom em ódio duradouro — no que se refere à raiva, sou aquele sujeito de rompantes momentâneos. Eu diria que a vida é curta demais para odiar o câncer; eu o tratei como um visitante indesejado e, com educação mas decidido, o expulsei da minha casa.
Que montanha-russa foi esse ano. Olhando mais para trás, que montanha-russa de vida. Dos altos e baixos da escola e da faculdade à mais longa e rápida queda livre de todos os tempos: ser um membro do Iron Maiden.
Vivem me perguntando: “Você teria feito alguma coisa de forma diferente?” A resposta é um simples não. Uma pergunta diferente seria: “Você cometeu algum erro?” E a resposta seria igualmente fácil: um monte.
Quanta coisa, não é mesmo? E olha que eu separei apenas os trechos que achei mais interessantes. Não prometo nada, porque a maioria dos meus planos meio que acabam fugindo do controle, mas quem sabe eu acabe postando mais trechos lá no Facebook, assim vocês podem aproveitar e compartilhar também.

Em breve, se tudo der certo, eu apareço aqui para compartilhar aquela playlist pra ouvir enquanto você estiver lendo este livro.

Beijinhos e até a próxima.

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