[RESENHA] Ecos


Olá pessoal! De volta com mais uma resenha para vocês. Tenho que dizer que acho que ando com uma boa sorte nas primeiras leituras de cada ano. Em 2018, Ordem Vermelha foi o primeiro que li e terminou como a melhor leitura do ano. E agora em 2019, iniciei os trabalhos com o INCRÍVEL Ecos, de Pam Muñoz Ryan, e já é sério candidato a melhor leitura do ano. Por isso, vamos logo para a resenha, que já aviso, será um pouco longa e pode conter alguns leves spoilers.
Seu destino ainda não está selado.
Até na mais sombria noite
uma estrela brilhara, um sino soará,
um caminho será revelado.

Ecos é um livro sobre o poder da música. Tudo começa cinquenta anos antes da Primeira Guerra, quando o jovem Otto se perde em uma floresta e encontra três irmãs encantadas, que, ao nascer, cada uma foi levada a uma bruxa, por não terem nascido meninos, como desejava o rei. Lá, viveram como prisioneiras da bruxa por muitos anos, até que um dia tiveram a oportunidade de voltar ao reino. Porém, foram amaldiçoadas pela bruxa, irada por elas quererem ir embora. Elas só poderiam sair dali se fossem com seus espíritos dentro de um instrumento de sopro e salvassem uma pessoa à beira da morte.

Elas ajudam Otto a voltar para casa, enquanto ele tem que levar seus espíritos dentro de uma gaita de boca, prometendo repassar a gaita quando o momento certo chegar. A partir deste ponto, começam a se desenrolar as três histórias que acompanharemos neste livro. A primeira delas em 1933, na Alemanha da ascensão de Hitler ao poder.

Friedrich Schmidt - 1933

Friedrich é um jovem alemão que poderia viver sua vida normalmente, se não fosse uma mancha de nascença em seu rosto. Ele vive com a cabeça baixa, fazendo de tudo para que outras pessoas não vejam seu rosto e comecem a julgá-lo por sua aparência. Ele ama a música, e sonha em um dia ser maestro. Seu pai, há muitos anos, tocava violoncelo na Filarmônica de Berlim. Ele deixou isso de lado quando a esposa morreu e ele teve que se dedicar na criação dos filhos Friedrich e Elisabeth.

O cenário para a história de Friedrich é na Alemanha, onde Hitler ganha cada vez mais seguidores e as ideias de uma raça pura começam a tomar conta das ruas. O medo já se espalha pelas cidades, e alguns já começam a fazer suas escolhas para evitar o pior. Da mesma forma, a perseguição aos judeus começa a ganhar força. Ele sabe bem que também pode vir a ser perseguido, ou pelo menos ser uma das vítimas na busca de formar uma raça pura. Seu pai não consegue aceitar as ideias disseminadas e sua irmã surpreende através de suas escolhas.

A música é sua forma de escape. Em algum momento, é claro, a gaita chega até ele. Quando a toca, Friedrich sente que é capaz de superar todas as adversidades.

Os sentimentos nesta história são bem conflituosos. Impossível não sentir revolta quando as ideias de Hitler e seus seguidores começam a tomar forma nas páginas do livro. Ao mesmo tempo, o medo, misturado à esperança de um jovem alemão sonhador, é um bom escape em meio a tantos problemas.

Depois de certos acontecimentos, de nos deixar presos às páginas do livro, querendo saber o que acontece, de repente, a história de Friedrich chega ao fim. Fiquei um momento tentando digerir o fim súbito dessa primeira parte. Naquele ponto, a gaita, em um gesto de despedida de Friedrich, já havia sido deixada em um outro lugar, para que de alguma forma chegasse às mãos certas novamente.

E assim, de surpresa, saltamos dois anos no futuro e chegamos a junho de 1935, nos Estados Unidos.


Mike e Frankie Flannery - 1935

Mike e Frankie são irmãos, órfãos. Foram deixados no Lar do Bispo para Crianças Desemparadas, pela avó, que estava em seus últimos anos de vida e não tinha mais condições de criar sozinha os meninos. Ela os fez prometer que nunca se separariam e sempre cuidariam um do outro.

Alguns casais já tentaram adotá-los, mas quase sempre queriam o mais novo, Frankie, que não aceitava de maneira alguma ir a algum lugar se o irmão, Mike, também não fosse adotado. Assim como Friedrich, da primeira história, os dois tem paixão pela música, e são muito bons no piano, especialmente Mike.

Um concurso da famosa banda Magos da Gaita de Hoxie é visto pelos dois como a grande oportunidade de deixar o Lar do Bispo. Aqueles que ganharem o concurso poderão entrar na banda e, caso não tenham casa, a banda consegue uma para eles. Mas por um acaso do destino, aparece alguém que aparentemente aceita adotar os dois. Uma família rica e que poderia dar a eles a vida que sempre sonharam. Mas a vida é repleta de surpresas, boas ou ruins.

Entrar na história de Mike e Frankie depois do fim súbito da de Friedrich não foi tão difícil, já que os irmãos preenchem as páginas com incríveis demonstração de amor, apoio e amizade. Como eu disse, as coisas podem sair um pouco diferente do que os irmãos imaginavam ao ser adotados. Uma vida de luxo, comida boa todo dia, a companhia que um faz ao outro está lá. Mas a sensação de uma nova família pouco aparece.

A gaita também está presente. Mike a encontra em uma loja e logo, de alguma maneira, percebe que essa é uma gaita especial. Assim como com Friedrich, quando a toca, sente que pode superar problemas e até esquecê-los por algum momento.

A narrativa se desenrola de forma a fazer com que Mike tenha que decidir o que é melhor para ele e o irmão. Vale à pena quebrar promessas? Abrir mão da nova vida que conquistaram? Confiar em outras pessoas? Acreditar que um dia mais alguém estará em sua família além dele e do irmão? E mais uma vez, com tudo se encaminhando para um desfecho, a história acaba. Pistas de onde a gaita iria parar aparecem ao longo da narrativa, mas em seu fim súbito, só sabemos que ela ainda está com Mike.

E sete anos no futuro, chegamos a 1942, também nos Estados Unidos.


Ivy Maria Lopez - 1942

Ivy e sua família vivem se mudando. Com o pai é sempre a mesma história: a nova casa é a melhor possível para eles. Depois de um ano vivendo em uma mesma cidade, Ivy fazendo grandes amizades, construindo sua paixão pela música, andando pelas ruas, tocando sua gaita (sim, a gaita de Otto), que faz com que todos parem e admirem seu talento nato, e a família finalmente estabelecida, um acontecimento aparece para mudar os rumos de suas vidas novamente.

O Japão lidera um ataque a Pearl Harbor. O exército americano se mobiliza para conter os avanços. Ao mesmo tempo, vários japoneses e seus descendentes que vivem em território americano, muitos deles donos de grandes fazendas que auxiliam na produção e distribuição de comida em todo o território do país, principalmente durante a guerra, são levados de suas casas para campos de concentração.

E é para uma dessas fazendas que a pequena e sonhadora Ivy irá se mudar. A mesma conversa de sempre do pai, mas dessa vez abrindo mão de tudo o que ela conquistou, suas amizades e a expectativa de uma apresentação musical em uma rádio. De um dia para o outro. Um amigo de seu pai o indicou para cuidar de uma fazenda enquanto os donos, japoneses, estavam sendo mantidos prisioneiros. Depois que tudo tivesse acabado, seria a oportunidade de finalmente ter o lugar como casa definitiva, um lar onde poderiam viver felizes e o lar para onde seu irmão voltaria depois do fim da guerra.

Das três, talvez a história de Ivy tenha sido a que mais gostei e me emocionei. Na de Friedrich a guerra estava dando seus primeiros passos. Com Mike e Frankie, ela é deixada um pouco de lado, para dar lugar a uma narrativa completamente centrada em seus protagonistas, com um pano de fundo menos presente. Já através dos olhos de Ivy vemos os japoneses que viviam nos Estados Unidos serem levados à força, muita revolta contra eles e a pequena garota não entendendo o que se passa, principalmente depois de ver fotos da família dona da fazenda. Além disso ela sente na própria pele, ao ir para escola, ser segregada em um anexo longe da sede principal, voltada aos mexicanos, sendo que sua família é nascida nos Estados Unidos há várias gerações, e mais uma vez sem entender a necessidade de tanta divisão.

Ela se agarra a música para manter-se firme. Seus pais, com o aperto no coração por um filho na guerra, não conseguem a apoiar em seus sonhos. A menina, com garra, encontra o próprio caminho, para cumprir a promessa feita ao irmão, dela ser aquela que os manteria unidos e com esperança. Mais um final súbito, com uma misteriosa notícia batendo na porta da casa de Ivy.

A gaita, pela última vez, foi passada adiante. Será que ela encontraria seu destino e as três irmãs finalmente estariam livres para voltar para casa, em um tempo distante no passado?


Estados Unidos - 1951

Será que realmente ficaríamos sem saber o que aconteceu? O que posso dizer é: Ecos e seus personagens nunca mereceriam finais tristes e trágicos. A mágica de suas páginas transborda ao coração de seus leitores, encantando e emocionando. Depois de um salto de nove anos no tempo, entenderemos como todas as histórias narradas se conectam. Respostas serão dadas e o leitor poderá, uma última vez, se emocionar com Friedrich, Mike, Frankie e Ivy.

Foi uma leitura incrível. Personagens incríveis, histórias emocionantes, que nos prendem. A edição da DarkSide está impecável. Ouso dizer que, dos livros que eu li da editora, esse é, sem dúvidas, o melhor trabalho gráfico deles.

E é isso. Agora resta saber onde em meu Top 10 de 2019 este livro ficará. Será que ficará em primeiro até o fim do ano?

Autora: Pam Muñoz Ryan | Editora: DarkSide | Páginas: 368 | Ano: 2017

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