[RESENHA] A Incendiária

Hoje trago a resenha de um dos grandes nomes da literatura mundial, Stephen King e seu livro "A Incendiária", publicado pela Editora Suma. É o segundo livro do autor resenhado aqui no blog, o primeiro foi o incrível "Misery - Louca Obsessão". A resenha de hoje também serve para testarmos um novo formato para publicação de nossos textos e fotos, somente mudanças estéticas mesmo. Esperamos que gostem. Então vamos lá, confiram o que achei da leitura.

- Papai, estou cansada - disse a garotinha de calça vermelha e blusa verde. - A gente não pode parar?
- Ainda não, querida.
Ele era um homem grande de ombros largos, vestindo um paletó de veludo gasto e puído e uma calça marrom de sarja. Ele e a garotinha estavam de mãos dadas, andando pela Terceira Avenida em Nova York. Caminhavam rápido, quase correndo. Ele olhou para trás, e o carro verdade ainda estava lá, seguindo lentamente junto ao meio-fio.
- Por favor, papai. Por favor.
E assim são as primeiras palavras que lemos em "A Incendiária". Uma família perseguida, alguns anos após terem passado por experimentos do governo que deram poderes a eles. Andy e Vicky participaram do estudo em troca de duzentos dólares, sem imaginar o que o futuro os reservava. Os poderes que conseguiram acabaram não sendo grande coisa. Ele passou a poder dar pequenos impulsos mentais nas pessoas e estimular algumas atitudes nelas. Ela podia mover objetos. Os dois casaram-se e tiveram Charlie. Toda a esperança de poderem viver como uma família normal se esvaiu a partir do momento em que os poderes na pequenina começaram a se manifestar. Poderes muito mais perigosos e a absurdos do que esperavam. Charlie é pirocinética: capaz de fazer fogo com a mente. Eles precisavam educar a filha para que nenhum acidente mais grave ocorresse.

Obviamente o casamento e o que resultou dele chamou a atenção da Oficina, que passou a fazer de tudo para pôr as mãos na filha do casal e estudar os prováveis efeitos que a união de Andy e Vicky causou ao gerar a menina.



















"A Incendiária", sexto romance publicado pelo autor, - nono se considerarmos outros dois anteriores a ele publicados sob o pseudônimo de Richard Bachman - é sem dúvidas um trabalho interessante e com algumas mensagens e insinuações nas entrelinhas.

Começando pelos personagens. Praticamente todos são interessantes. Os protagonistas, Andy e Charlie, são, é claro, os de maior destaque. O desenvolvimento de ambos é primoroso. O amor entre pai e filha apresentado aqui é incondicional e, as coisas que ambos estão dispostos a fazer para proteger um ao outro são admiráveis, embora questionáveis em uma situação diferente. Eles não medem esforços para escapar da perseguição implacável dos profissionais da Oficina. A qualidade do trabalho não se resume a um excelente detalhamento da superfície que os personagens nos apresentam. Stephen King dá uma aula de como entrar na mente deles. Este não é um livro de terror, mas seguramente os dois protagonistas passam por situações que poderiam destruir qualquer mente sã.

Quando passamos para coadjuvantes e antagonistas, o retrato não se altera tanto, mas também não ganha destaque. Alguns dos personagens secundários aparecem com alguma importância e até retornam, mas nesse caso, sem spoilers. Já os antagonistas, até começam interessantes, mas aos poucos vão caindo em um clichê que, para mim, é um pouco irritante. A vilania dos vilões, principalmente de John Rainbird, que trabalha para a Oficina e decide se tornar amigo de Charlie, com más intenções, em dado momento da trama, é extremamente caricata. Apesar do personagem ter um plano de fundo bastante interessante, fiquei com esse incômodo, principalmente por conta do personagem ser apresentado de forma excelente e instigar o leitor a querer conhecê-lo mais.


Os momentos de ação são ótimos. As descrições e tudo passam um retrato bastante vívido, principalmente quando mostram Charlie fazendo uso de seus poderes. Os detalhes transbordam das páginas e é possível mensurar claramente a dimensão que os poderes da garota são capazes de alcançar.

O livro sofre um pouco com seu ritmo inconstante. Até a metade da leitura é realmente incrível. Em um certo momento a trama passa a evoluir mais vagarosamente. É aqui onde a imagem caricata dos vilões e da Oficina ficam em maior evidência. Até que chegam os momentos finais, onde os acontecimentos ganham contornos épicos.


E lembram que falei sobre mensagens nas entrelinhas? De forma mais clara e dominante percebemos uma mensagem à liberdade, não importa se é liberdade de escolha, ou de viver, ir livremente para onde bem entender sem ter medo de estar sendo perseguido. Os personagens passam por situações que claramente restringem tal direito. Mas ainda mais profundamente, eu ia notando algo a mais durante a leitura e que se confirmou com o texto de apoio de Grady Henderson, incluído na edição ao final do livro. Stephen King, até o ponto onde chegou a publicar "A Incendiária", aparentemente sempre relutou em retratar um assunto em suas obras: sexo.

O texto de Henderson fala que essa obra pode ser entendida também como o despertar sexual de Charlie. Confesso, achei estranho até certo momento alguns momentos de conotação sexual. Só que também muitos desses momentos não partiam da própria personagem. King faz de um dos personagens tanto um retrato interessante a se acompanhar, mas também pintando um retrato que causa repulsa por seus objetivos pessoais: John Rainbird. E, sem alarme, apesar de vagar entre as entrelinhas e o explícito - no sentido de trazer essa conotação à trama - King não extrapola limites. Há uma atmosfera sexual presente, mas não passa disso.

O livro faz essa ligação entre sexo e fogo, relação essa que sempre foi bastante conhecida e difundida no mundo. Mas King, quando se trata de Charlie e colocar tais contornos na personagem, não faz isso de forma absurda ou insensível. Há momentos de certa delicadeza, exatamente com mensagens nas entrelinhas e em outros você entende mais claramente o que o autor que dizer com aquela mensagem, sonho ou seja lá qual tenha sido o meio. Charlie está crescendo, prestes a entrar na adolescência e há muito mais do que hormônios querendo explodir dentro da garota. Até certo ponto seria natural fazer a associação que citei no início do parágrafo. No mais, é como falei logo quando comecei a trazer esse assunto: podemos até torcer o nariz para certas situações do livro, isso quando envolve principalmente Rainbird, mas quando o foco é na própria protagonista, a proposta de King é interessante e adiciona novas facetas à personagem e à trama.




Sobre a edição: excelente. Já tinha ouvido falar dessa coleção, intitulada de Biblioteca Stephen King, que mais do que publicar os livros do autor, traz de volta ao nosso mercado alguns dos títulos esgotados há anos. Ter em mãos um dos membros da coleção é incrível, tanto como leitura, quanto como objeto físico. Obrigado ao Grupo Companhia das Letras / Editora Suma pelo envio. Acreditem, fiquei muito feliz!

Com uma escrita envolvente, "A Incendiária" prende o leitor por conta de seus protagonistas completos e complexos, que fazem o possível para se manterem vivos. Apesar dos clichês com vilões extremamente caricatos e o polêmico assunto que por vezes fica nas entrelinhas o qual citei na resenha, a leitura flui e nos faz querer saber o que acontecerá com todos ali. O final, como a muitos, não me agradou tanto, um pouco anti-climático demais. Com certeza uma leitura que vale muito à pena.

Autor: Stephen King | Editora: Suma | Páginas: 448 | Ano: 2018


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