[RESENHA] O Martelo de Thor

Autor: Rick Riordan
Editora: Intrínseca
Páginas: 400
Ano: 2016
Classificação: 5/5
Em A espada do verão, primeiro livro da série, os leitores são apresentados a Magnus Chase, um herói boa-pinta que é a cara do astro de rock Kurt Cobain. Morador de rua, sua vida muda completamente quando ele é morto por um gigante do fogo. Por sorte, na mitologia nórdica os heróis mortos vão parar em Valhala, o paraíso pós-vida dos guerreiros vikings. Lá, Magnus descobre que é filho de Frey, o deus do verão, da fertilidade e da medicina.
Desde então, seis semanas se passaram, e nesse meio-tempo o garoto começou a se acostumar ao dia a dia no Hotel Valhala. Quer dizer, pelo menos o máximo que um ex-morador de rua e ex-mortal poderia se acostumar. Magnus não é tão popular quanto os filhos dos deuses da guerra, como Thor e Tyr, mas fez bons amigos e está treinando para o dia do Juízo Final com os soldados de Odin - tudo segue na mais completa paz sanguinolenta do mundo viking.
Mas Magnus deveria imaginar que não seria assim por muito tempo. O martelo de Thor ainda está desaparecido. E os inimigos do deus do trovão farão de tudo para aproveitar esse momento de fraqueza e invadir o mundo humano.
Vez ou outra os livros costumam nos surpreender além do esperado. Recentemente tive uma experiência assim, com “Matéria Escura”, um livro de ficção científica mais do que incrível. Dessa vez, venho falar de uma outra surpresa super positiva, que é o livro que dá título a essa resenha. Vamos lá falar de “O Martelo de Thor”, segundo livro da trilogia “Magnus Chase e os Deuses de Asgard”, de Rick Riordan.

Minha experiência com o primeiro livro e também primeira vez lendo algo do autor não foi das mais satisfatórias. Cheguei bem perto de abandonar a leitura, algo raro pra mim, que, se não estou gostando, ao menos arrasto até conseguir terminar. Felizmente, do meio para o fim daquele livro, consegui me apegar mais à história e aos personagens, que possuíam um bom plano de fundo. Ainda assim, terminei aquela leitura com o pensamento de que teríamos uma certa repetição de fórmula nos livros seguintes e com certo medo de que tudo acabasse sendo mais do mesmo. E não é que eu estava errado quanto às minhas expectativas?

“O Martelo de Thor” é bem melhor que “A Espada do Verão”. Até posso exagerar e dizer que é MUITO melhor. Sabe aquele livro que você não consegue largar até que termine? Esse é um desses livros, sem dúvidas. Já mais acostumado com o estilo do autor, me deixei levar pela história. E pense em uma sensação boa, ler algo que diverte, encanta, deixa nervoso, em alguns momentos causa alguma emoção. Elementos quase ausentes em um primeiro livro de trilogia e que no segundo vem como uma onda para cima de você. Me arrisco a dizer que esse volume é um dos melhores livros já escritos pelo Rick em toda sua carreira como escritor. (Palpite de um cara que só leu dois livros dele!!)

Não, não é mais do mesmo, ao menos da minha perspectiva, comparada à única outra obra que li dele. Nesse livro, que continua pouco tempo depois de onde termina “A Espada do Verão”, os principais personagens - Magnus, Sam, Hearthstone e Blitz - já estão mais que estabelecidos e, pensava eu, desenvolvidos. Eis que daí surge a primeira boa surpresa, que é o fato do autor conseguir dar ainda mais espaço para eles crescerem, como indivíduos, como amigos e como família. Destaque para Hearthstone, o elfo surdo e, Samirah (Sam), a valquíria muçulmana. Hearth é um caso bem especial, tanto pelo fato da representatividade, - onde Sam também se encaixa - que, até onde sei, é tema cativo das obras do autor, quanto pelo drama de ser renegado pela família por alguns acontecimentos de seu passado e por não ser perfeito de acordo com as visões de sua raça. 

Já Sam, cresce diante dos conflitos que surgem ao longo da narrativa, que gira bastante em torno dela e de Loki, seu pai, o que provoca certa insegurança dela em relação aos amigos, à família e ao futuro marido, uma vez que o relacionamento dos dois está ameaçado pelos planos do deus das travessuras. O foco da personagem são seus relacionamentos e o poder que seu pai tem de afetar diretamente sua vida. Dentro desse contexto, surge a segunda e maior surpresa do livro, que é o aparecimento do melhor personagem desse da série até o momento. Falo de Alex Fierro, irmã/irmão de Sam, também filha/filho de Loki. Alex é uma pessoa de gênero fluido, portanto, na narrativa, há momentos em que se sente como um menino e em outros, como uma menina. Para facilitar um pouco as coisas, vou me referir à personagem no feminino, por ser como se apresenta durante boa parte da obra.

Por que a importância dessa personagem? Novamente, tem essa questão da representatividade, nesse caso, de identidade de gênero, mas também, pelo fato dela ser basicamente o contrário do que é representado por Sam. Alex é extremamente segura, cautelosa e capaz de desafiar Loki e seus poderes, coisa que sua irmã ainda reluta em fazer, por medo de não ser capaz de resistir. Alex dá uma cara diferente ao grupo e é uma excelente adição no corpo principal dos personagens.

A inclusão da temática LGBT, ponto mais elogiado da obra por público e crítica, ao lado, é claro, da ótima narrativa, rendeu ao autor o prêmio Stonewall Book Awards de 2017, na categoria infantojuvenil.

Alex Fierro também representa, ainda que, por enquanto, de forma bem implícita, um tiro certeiro, corajoso, mas com muitos méritos, a possibilidade de um relacionamento com o protagonista, o que pode vir a reforçar ainda mais aquilo que mais foi elogiado no trabalho do autor. Por enquanto, não é algo possível de se confirmar, mas que foi algo que não pude deixar de perceber nas entrelinhas. E ainda assim, mesmo que não aconteça, achei bastante interessante a química entre Magnus e Alex, que funciona muito bem. Em palavras que li na internet, provavelmente em alguma resenha no Skoob, Alex causou um certo fascínio em Magnus e é interessante ver como a amizade entre os dois vai se desenvolvendo, e, da parte de Magnus, o receio que ele tem de conhecer mais sobre a nova companhia e acabar tocando em pontos delicados demais.

Quanto à narrativa em si: sensacional! O livro passa por diversos arcos narrativos, todos, obviamente, ligados entre si, cronologicamente e na ordem de acontecimentos e é cada um melhor que o outro. Tudo com um objetivo central: Encontrar o Martelo de Thor, Mjolnir. Na trajetória até chegar esse objetivo podemos perceber que há algo bem maior sendo tramado e, a desculpa dada pelo sumiço e acordos para receber pistas do martelo do deus do trovão parecem simples demais. O Ragnarok parece cada vez mais próximo e mantenho meu questionamento. Será que o autor vai terminar a trilogia fazendo os heróis adiarem o Ragnarok, ou será que teremos um final repleto de batalhas, sangrento e o início de um novo mundo, do zero, como relatam os contos do apocalipse nórdico?

Desde o início Rick procura manter o leitor preso às páginas do livro, com uma história dinâmica e, dessa vez, com o humor na medida certa. “O Martelo de Thor” continua, com maestria e com muita segurança, aquilo que já foi estabelecido no primeiro volume. O autor apostou em seus personagens, que se sustentam e sustentam muito bem a trama, trabalhou melhor o humor, capaz de arrancar boas risadas e deu um incrível tratamento à mitologia em que se baseia. Li recentemente “Mitologia Nórdica” de Neil Gaiman, um compilado de contos e, lendo o livro de Rick Riordan, por diversos momentos aquilo que eu já havia lido vinha à minha mente, de tão bem fundamentado que é o trabalho do autor. 

A única coisa que posso dizer para finalizar essa resenha é: Que venha “O Navio dos Mortos”, porque esse mal terminou e já está deixando saudades. Uma das melhores leituras do ano, quem diria!!

Espero que tenham gostado da resenha. Até a próxima!

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