[RESENHA] Cidade dos Etéreos

Autor: Ransom Riggs
Editora: Intrínseca
Páginas: 384
Ano: 2016
Classificação: 4/5
Neste segundo livro, o grupo de peculiares precisa deter um exército de monstros terríveis, e a srta. Peregrine, única pessoa que pode ajudá-los, está presa no corpo de uma ave. Jacob e seus novos amigos partem rumo a Londres, cidade onde os peculiares se concentram. Eles têm a esperança de, lá, encontrar uma cura para a amada srta. Peregrine, mas, na cidade devastada pela guerra, surpresas ameaçadoras estão à espreita em cada esquina. E, além de levar as crianças a um lugar seguro, Jacob terá que tomar uma decisão importante quanto a seu amor por Emma, uma das peculiares.
Telecinesia e viagens no tempo, ciganos e atrações de circo, malignos seres invisíveis e um desfile de animais inusitados, além de uma inédita coleção de fotografias de época — tudo isso se combina para fazer de Cidade dos etéreos uma história de fantasia comovente, uma experiência de leitura única e impactante.
Voltei, dessa vez com o segundo volume da série da Srta. Peregrine. Já aviso que agora vem um momento de spoilers do primeiro volume, então, se não leu ainda, pule alguns parágrafos para saber somente o que achei da narrativa desse segundo volume, sem spoiler algum.


Cidade dos Etéreos começa exatamente de onde terminou o primeiro volume. As crianças tiveram que enfrentar o “grande vilão” até aquele momento, um acólito (Etéreo que evoluiu de volta para a forma humana) que se revelou ser o psiquiatra de Jacob, que é apresentado logo no início da história. A Srta. Peregrine havia sido capturada em sua forma de ave e quase foi levada para um submarino por outros acólitos, mas com muito esforço, Jacob, Emma e alguns outros conseguiram recuperá-la no mar. O primeiro volume termina com as crianças em alguns barquinhos, saindo da ilha e indo rumo ao continente, para tentar fazer a Srta. Peregrine voltar a sua forma humana, depois de ter sido “envenenada”, o que a impede de realizar esse processo sozinha.

As Ymbrynes só podem voltar à sua forma humana, em casos como o apresentado acima, com a ajuda de outra ymbryne.


E a história parte desse ponto. As crianças precisando achar alguém que as ajude, com a jornada sendo constantemente perigosa, com cenários de guerra, acólitos as perseguindo e os perigosos e mortíferos etéreos ameaçando a vida de todos.

Cidade dos Etéreos logo de início se prova um livro com uma qualidade bem diferente de seu antecessor. A ambientação muda drasticamente e aquele cenário de verão, da fenda temporal do primeiro volume é trocado agora pelo perigo da guerra e a constante ameaça que cerca os ótimos personagens da história.


Gosto bastante da participação das crianças peculiares, mas de um volume a outro acabei gostando mais de uns e outros nem tanto. Eu tive um grande problema com Enoch nesse volume, por conta de seu pessimismo. Não que o personagem seja ruim ou algo do tipo, mas o autor parecia fazer questão a todo momento de dizer, seja por meio dos diálogos ou através da narrativa em primeira pessoa de Jacob, que aquele personagem leva a vida sempre esperando o pior de todas as coisas. Esse exagero de reforçar a personalidade de alguém eu também percebo em Bromwyn, ainda que em menos intensidade comparada a Enoch. Gosto muito da personagem, mas no caso dela é a questão de ser maternal com os menores. Lembrando, o problema não são os personagens, mas sim o fato do autor querer reforçar a todo momento a personalidade deles, como se não soubéssemos que Enoch é pessimista, Bronwyn é maternal, Horace um pouco covarde, depois de já saber disso no primeiro volume e em boa parte desse segundo.

Passei a gostar bastante de Hugh nesse volume, já que aqui ele se provou importantíssimo para a sobrevivência de todos. O mesmo com Millard e até mesmo a pequena Olive. A dupla Jacob e Emma, que são protagonistas juntos, onde um vai o outro vai atrás, são interessantes, mas não se sustentam tanto sozinhos. O romance parece ensaiar tomar um pouco mais de profundidade, mas parece que falta algo e mostra-se sempre a mesma coisa, tendo algum avanço somente mais próximo ao final. E lembro que sequer faço questão de que ele tome mais espaço na história, mas essa é a minha impressão da forma em que ele é colocado nas páginas.


Temos alguns avanços em relação ao desenvolvimento de personagens, principalmente Jacob, que começa a compreender melhor seu poder, que não se trata somente de poder ver os Etéreos, que são invisíveis a todos os outros. As possibilidades desse poder são bem maiores do que eu esperava. Ele também passa pelos dilemas de estar longe dos pais, se ele deve voltar ou não ao seu tempo, sem saber como eles estão lidando com seu sumiço, se está vivo ou morto.

Os novos personagens, a maioria sem ser recorrente no resto da trama, são interessantes. Destaco os ciganos, que aparecem ali perto do meio do volume e dão uma atmosfera bacana à história e um raro momento de felicidade para as crianças em meio a todas as dificuldades que passam. 


A narrativa corre em um bom ritmo. Talvez haja acontecimentos demais, mesmo que eles tenham qualidade como um todo. Ainda há aquele problema de ritmo, de boa parte do livro demorar a levar a um objetivo definido. Sabemos que eles tem que dar um jeito de curar a Srta. Peregrine, mas, para onde vão, antes da Londres da sinopse? Muitas páginas são gastas para chegar no lugar que a resposta indica. 

Mas aí chegamos ao ponto que, se não fosse uma ótima história nas primeiras 300 páginas, tudo teria ido por água abaixo. Faltava uma grande reviravolta na história, mas eu já estava me conformando com a maneira com que o volume iria terminar, com talvez um pequeno gancho nas páginas finais para o terceiro volume. Mas eis que o autor, Ransom Riggs, decide ousar e tira da cartola uma grande solução para esse problema. De onde ele tirou? Não faço a mínima ideia, mas foi algo que, em minha opinião, insultou a inteligência do leitor. Quem já leu deve saber o que é e talvez até mesmo tenha gostado e tenha se surpreendido positivamente, mas a forma com que aconteceu, como tudo se desenrolou após tal revelação - breve spoiler a seguir - (as crianças foram capazes de mostrar que não são tão covardes assim ao longo do livro e ele as fez simplesmente ficar olhando o que ocorria, em uma vantagem de sei lá quantos contra UM em um ambiente completamente blindado de interferências externas.) e, ainda mais, o fato de que em poucos momentos, pra não dizer que em momento algum das tais 300 páginas anteriores e de momentos finais do primeiro volume, há algo que ao menos sustente a lógica do que ocorreu, faz parecer que houve sequer planejamento para a história ou para parte dela. 


Quer uma prova maior disso do que o próprio autor dizer, em uma entrevista que também está presente no livro que, depois de escrever metade desse segundo volume, não tinha sequer pensado como terminá-lo, até que teve essa ideia absurda, a qual detonei acima? Se fosse para ocorrer o que ocorreu nos momentos que se seguiram, que o estopim para isso tivesse sido feito de outra maneira. Enfim, por sorte, essa falta de planejamento não prejudica a história como um todo e ela deve conseguir se sustentar daqui pra frente, ainda que vá ser possível perceber os efeitos dos acontecimentos no volume final.

E é isso, espero que tenham gostado da resenha e que não se sintam tão afetados pelo que falei de ruim da obra logo acima, afinal, tenho só elogios para todo o resto, menos para seu final. Expectativas para o volume final? Com certeza. Espero trazê-lo em breve para vocês. Até a próxima!

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