[RESENHA] Faca de Água

Autor: Paolo Bacigalupi
Editora: Intrínseca
Ano: 2016
Páginas: 400
Classificação: 5/5
Num futuro árido e tumultuado, em que a água ganhou o status de commodity mais valiosa, o direito de uso das fontes e dos rios é alvo de disputas ferrenhas. Uma guerra entre governos, órgãos públicos e empresários, na qual vale tudo. Enquanto advogados e burocratas armam-se com infinitos processos judiciais, mercenários e militares subjugam proprietários de terra, implodem estações de tratamento e interrompem o abastecimento de regiões inteiras.
Nesse cenário surge Angel, um faca de água, um dos muitos mercenários com a missão de cortar e desviar o fornecimento de água a mando de quem paga mais. Lucy é uma jornalista premiada que decidiu revelar para o mundo a realidade da Grande Seca. Maria é uma jovem cuja vida foi destruída pelos efeitos das mudanças climáticas. Quando o direito de usar a água significa dinheiro para alguns e sobrevivência para outros, o que esses três personagens não sabem é que seu encontro é um marco que poderá mudar tudo. Um novo fiel da balança que sempre pendeu para o mesmo lado.
Futurista, mas nada improvável, Faca de Água é um thriller que perpassa por questões econômicas, ambientais e éticas numa narrativa que extrapola o gênero, daquelas que se lê de uma tacada só e depois leva-se um longo tempo assimilando.
Voltei. Essa demorou bastante para sair, com uma ressaca literária fazendo efeito até pelo menos metade da leitura, o que acabou arrastando um pouco ela. Mas chegou e aqui estou com a resenha de Faca de Água. 
Já imaginaram como será o mundo quando a água se tornar o bem mais precioso? Tudo bem, já estamos bem próximos dessa realidade, mas ainda não chegamos ao ponto em que cidades são destruídas e guerras são deflagradas pelo direito de controlar a água. Faca de Água vai contar essa realidade, em um futuro distópico, nos Estados Unidos, que agora estão divididos em algumas poucas regiões e brigam por cada possibilidade de armazenar o líquido mais precioso para a sobrevivência.

A mando de grandes chefões, diversas cidades são condenadas ao terem seu abastecimento cortado. Por consequência, milhares de pessoas ficam a mercê de um calor abrasador por conta das grandes mudanças climáticas pelas quais o planeta está passando. Somente os ricos tem alguma possibilidade de sobrevivência, comprando um lugar em empreendimentos que usam a água para criar um ambiente sustentável e sem desperdício. Fora desses lugares, mortes se acumulam, seja por brigas de gangues, ou por pessoas buscando a sorte ao tentar atravessar fronteiras para um estado onde a situação não esteja tão ruim.

No livro acompanhamos os passos de três personagens: Lucy, uma jornalista premiada que vive em Phoenix, cidade que serve como plano de fundo para a história e que se encontra em situação crítica e vê em alguns dos direitos de água mais antigos sua esperança de sobrevivência; Maria, uma adolescente que se vê obrigada a se prostituir para manter o sustento e acaba envolvida em uma trama que envolve os estados mais poderosos a controlar a água; E Angel, um Faca de Água, uma espécie de mercenário de Las Vegas - Nevada contratado especificamente para se infiltrar ou fazer de forma direta o corte do abastecimento de água de cidades que aparentam buscar algo maior do que simplesmente manter seu sustento e que acabem por tornar-se uma ameaça à estabilidade do estado para o qual trabalha.

Destaco em princípio a escrita de Paolo Bacigalupi. Em pouquíssimos momentos sua narrativa se arrasta. Mesmo não sendo uma história que prende a atenção do leitor através de grandes reviravoltas, a agilidade com que a história se desenrola acaba por manter a leitura fluida e nos deixa ávidos por querer saber como tudo vai se resolver.

Os personagens são excelentes, tanto os três protagonistas, que acabam por se encontrar ao longo da narrativa, quanto os personagens secundários, principalmente Toomie, amigo de Maria, que antes era um empreiteiro de sucesso e agora trabalha em um carrinho de comida em frente à construção de um dos empreendimentos imobiliários voltados para os ricos e que prometem boa vida, e Catherine Case, a empresária que comanda tais empreendimentos em Las Vegas e que decide que cidade precisa ser eliminada para que seus interesses sejam mantidos.

Tais personagens se destacam muito mais pela forma com que se relacionam do que necessariamente pelo seus crescimentos ao longo da narrativa. Não fica espaço para tanta evolução por serem pessoas marcadas por algum sofrimento, seja no passado ou no presente. Eles acabam por se comunicar e se entender justamente por tais marcas, que carregam na pele e no olhar.

A história também se desenrola de maneira a se tornar a alma dessa obra. Mais uma vez falo que, mesmo não sendo cheia de reviravoltas, ela prende a nossa atenção. O retrato de como a população mais carante vive, os conflitos, as coisas das quais as pessoas são capazes para sobreviver ou se manter acima dos outros, são absurdamente reais e, por que não, possíveis.

Faca de Água é um thriller distópico que se destaca por decidir mostrar algo muito mais próximo da realidade do que outras história do gênero e acerta em cheio em sua proposta. Leitura mais do que recomendada. Espero que tenham gostado da resenha e até a próxima.

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