[RESENHA] Todos Envolvidos

Autor: Ryan Gattis
Editora: Intrínseca
Páginas: 382
Ano: 2016
Classificação: 3/5
Durante seis dias, Los Angeles arde em chamas.
Durante seis dias, dezessete pessoas estão no meio do caos.
Durante seis dias, não há mocinhos nem bandidos, porque não há lei.
Na tarde de 29 de abril de 1992, um júri absolveu dois policiais brancos do Departamento de Polícia de Los Angeles acusados de usarem força excessiva para controlar um civil negro chamado Rodney King. Menos de duas horas depois, a cidade explodiu em violência, e o caos durou seis dias. Em aproximadamente 121 horas, sessenta pessoas morreram. Mas muitas mortes não foram contabilizadas: fora da zona principal de protestos, algumas gangues se aproveitaram dos tumultos para acertar as próprias contas.
Inspirado nesse momento e narrado do ponto de vista de dezessete personagens, o romance de Ryan Gattis apaga as fronteiras entre vítimas e criminosos e transforma a história dos protestos em uma vívida e eletrizante obra de ficção. Uma narrativa ambiciosa e arrebatadora, um épico sobre crime e oportunismo, vingança e lealdade.
E aí pessoal, estou de volta ao blog depois de passar pela sempre torturante época de provas da faculdade. Hoje temos mais uma resenha, dessa vez do livro Todos Envolvidos, de Ryan Gattis.


Como pudemos ver pela sinopse, o livro é inspirado em um dos períodos mais conturbados da história de Los Angeles. Na época, o júri absolveu da condenação três policiais brancos acusados de agredirem o taxista negro Rodney King, o que desencadeou uma série de eventos de revoltas ao longo de seis dias. Seis dias de caos generalizado, um grande conflito racial.

Usando esses dias como plano de fundo Ryan Gattis insere em sua obra o ponto de vista de 17 personagens, marcados na vida de alguma maneira. A história contada pelo autor começa a partir do momento em que Ernesto Vera, um cara que não tem envolvimento com qualquer tipo de crime é assassinado. Sua irmã Payasa, que está envolvida com gangues, depois de ficar sabendo da morte do irmão, decide buscar vingança e a partir daí, uma série de eventos é desencadeada na vida dos personagens direta e indiretamente envolvidos no acontecido.

Todos Envolvidos é uma obra com um tema forte. Os conflitos em Los Angeles no ano de 1992 podem ser considerados um marco na busca por igualdade racial e até mesmo étnica nos Estados Unidos. Ao usar como plano de fundo uma cidade em chamas, com casas e lojas destruídas, dezenas de mortos e uma briga extremamente violenta entre gangues, Gattis tem em mãos um retrato assustador da verdade envolvendo brancos, negros e estrangeiros convivendo em um país que até os dias de hoje tem como um de seus principais fatos negativos as intensas discussões acerca do preconceito.


Contar uma história do ponto de vista em primeira pessoa de dezessete personagens é um grande desafio. Ligar todos eles com os acontecimentos reais de Los Angeles aliados à morte do personagem Ernesto Veras seria um desafio maior ainda, por correr o risco de não conseguir amarrar bem a história. Ryan Gattis conseguiu?

O livro já começa diretamente com a parte de Ernesto, com uma boa narrativa, personagem interessante e uma excelente ambientação. Realmente nos sentimos dentro da Los Angeles daquela época. A narrativa em primeira pessoa contribui ainda mais para a imersão dentro da trama construída pelo autor. Logo nas primeiras páginas o livro dá uma pista do que ele pretende ser, não demorando muito para construir as primeiras partes do que vem a ser uma grande crítica ao sistema policial americano, à constante perseguição racial e étnica. 

E é nessa primeira parte do livro que o autor lança mão de algo que quase sempre me incomoda muito em qualquer livro que seja narrado em primeira pessoa que faça o que Ryan fez aqui. Mesmo com toda a profundidade que uma trama que se desenvolve sendo narrada pelo próprio personagem propicia, existem certos limites de até onde ir com essa narrativa, principalmente quando é uma história que usa como base acontecimentos reais. Ler a morte de um personagem em primeira pessoa é uma das coisas mais estranhas que existem. Ainda mais com uma história com forte conexão com o real. Isso me incomodou aqui porque acabou me tirando da conexão com a narrativa. Sim, é algo bem pessoal e pesou muito na minha opinião geral sobre a obra.


Quando prossegui com a leitura, problemas de narrativa semelhantes ao já citado foram menos comuns de aparecer. Em compensação, ele deu lugar a outros. Logo depois da morte de Ernesto somos apresentados aos personagens que tinham uma relação mais próxima com ele, como a irmã. Nesse ponto, a história continua interessante e vai construindo bem a imagem que já existe dos conflitos de 1992 em Los Angeles. A grande maioria dos personagens apresentados são marcados na vida de alguma maneira e alguns deles viveram ou fazem coisas assustadoras, muito pela falta de oportunidade de algo melhor na vida e por estar sempre lado a lado das coisas que influenciam alguém desde criança à entrar em  uma vida criminosa. São bandidos, enfermeiras, bombeiros. Todos eles ligados de alguma forma. Mas quanto mais a história avança...

O que prometia ser uma história de vingança se tornou uma desculpa para mostrar que as autoridades não ligavam para quem morria nas ruas dos bairros mais perigosos. Que os bombeiros demoravam para chegar nos locais incendiados. Que muitas das pessoas matavam sem motivo. Longe de eu estar criticando tudo isso. Pelo contrário, esse retrato montado por Ryan Gattis é a melhor coisa da leitura para quem está sendo apresentado aos fatos mais de 20 anos depois dos acontecimentos. É melhor porque a narrativa pretendida acaba se tornando entediante, repetitiva e sem muito propósito, por tudo praticamente se resolver ainda antes da primeira metade e o resto ser as tentativas de encaixar uma dezena de personagens que mesmo com certa profundidade, não são realmente tão importantes, apesar das conexões serem decentes  e das prováveis consequências dos atos realizados pelos primeiros personagens apresentados.


Todos Envolvidos esbarra na pretensão de amarrar dezessete personagens em uma trama eletrizante e violenta sobre vingança e lealdade mas que na realidade tem seu brilho contido pelos fatos reais em que se inspira. Talvez uma narrativa em terceira pessoa para todos os personagens fosse o ideal? Condensar as quase 400 páginas em cerca de 300 poderia resolver? Difícil responder essas perguntas.

Apesar das críticas, eu recomendo a leitura, muito mais pela minha satisfação com a forma com que os fatos reais são trabalhados, deixando o leitor imerso nos conflitos, do que com a ficção que se constrói à frente deles. 

É isso, obrigado aos que leram até aqui. Até a próxima!

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