[RESENHA] Golem e o Gênio

Autora: Helene Wecker
Editora: DarkSide Books
Páginas: 514
Ano: 2015
Classificação: 5/5
Chava é uma golem, criatura feita de barro, trazida à vida por um estranho rabino envolvido com os estudos alquímicos da Cabala. Ahmad é um gênio, ser feito de fogo, nascido no deserto sírio, preso em uma antiga garrafa de cobre por um beduíno, séculos atrás. Atraídos pelo destino à parte mais pobre de uma Manhattan construída por imigrantes, Ahmad e Chava se tornam improváveis amigos e companheiros de alma, desafiando suas naturezas opostas. Até a noite em que um terrível incidente os separa. Mas uma poderosa ameaça vai reuni-los novamente, colocando em risco suas existências e obrigando-os a fazer uma escolha definitiva.
Olá a todos! De volta com mais uma resenha, dessa vez da minha leitura mais recente. Golem e o Gênio, de Helene Wecker, verdadeiramente uma fábula eterna.


Golem e o Gênio vai contar a história de Chava (a Golem) e Ahmad (o Gênio, ou Djin). Os dois chegam em Nova York na virada do século XX depois de alguns contratempos em suas vidas. Ela, criada a partir do barro, para servir como esposa para um homem, encontra-se sozinha na cidade depois que aquele que a encomendou morreu durante a viajem de navio da Europa até os Estados Unidos. Ele, uma criatura de fogo em sua forma humana, descoberto por acaso depois de sair de dentro de uma pequena jarra de azeite, que descobre ter se passado um milênio desde sua lembrança mais recente, que ele lembrava como se fosse ontem.

A trama criada por Helene Wecker, como bem dito no subtítulo do livro, é uma belíssima fábula. Pegando como base as culturas árabe e judaica ela se apropia de criaturas místicas provenientes dessas culturas para criar uma incrível história sobre amizade e descoberta. Do judaísmo, temos a golem Chava criada com o único intuito de servir à um mestre. Ao se ver sem aquele que deveria cumprir essa função, já que ele morreu, ela chega em NY completamente perdida e sem ter ideia do que fazer. Além disso, por ter sido privada de cumprir somente os desejos de seu mestre, agora ela tem a habilidade de ler as mentes de outras pessoas e saber exatamente os anseios de cada uma delas, sentindo inclusive a necessidade de atender à esses desejos.


O Gênio, que surge baseado nos mitos árabes, é uma criatura de fogo que tem na liberdade seu principal modo de viver. Ele é privado de tudo isso ao, mil anos antes, ser aprisionado por um poderoso feiticeiro em uma jarra de cobre e não podendo mais voltar à sua formal original, ficando preso a uma forma humana. Ao acordar em NY, ele obviamente se espanta, tamanha a diferença em relação aos montes de areia do deserto que se estendiam à perder de vista. Mesmo assim, ele continua sem poder se transformar em sua verdadeira forma, tendo que se contentar em desbravar o novo mundo em um corpo que, para ele, é fisicamente limitado.

Os dois personagens são extremamente fascinantes. A golem, por ser muito inocente e conhecer tão pouco do mundo, tem um desenvolvimento maravilhoso ao longo das páginas, uma verdadeira jornada de autodescoberta. Ela tem que aprender a conviver em uma sociedade que com toda certeza não a aceitaria se soubessem sua verdadeira natureza. Por sorte, ou destino, ele encontra o rabi Meyer logo ao chegar em NY, que imediatamente à reconhece e se oferece para ajudá-la a se adaptar à cidade. Nos poucos momentos que temos a interação entre esses dois é possível perceber um relacionamento bem próximo de pai e filha. Ele próprio dá o nome de Chava à golem.

Já o djin, mesmo depois de 1000 anos, continua tentando fazer o possível para exercer sua liberdade nata. À noite anda pelas ruas da cidade descobrindo sempre uma nova coisa para fazer ou admirar, conhecendo pessoas, invadindo lugares e etc. Durante o dia ele trabalha em uma oficina, ao lado de Arbeely, aquele que o tirou de dentro da jarra de cobre. Seu trabalho é cuidar de peças de metal que chegam para reparos, como panelas, frigideiras, etc. Com seus poderes, além de conseguir fazer as coisas mais simples, ele consegue moldar os metais com as mãos criando algumas esculturas de ouro, prata, bronze. O maior destaque vai para seu fascínio por pássaros, retratados por ele geralmente engaiolados, simbolizando sua liberdade perdida.

Junto à esses dois incríveis personagens, temos uma ótima variedade de participações secundárias que se mostram de extrema importância para o desenvolvimento da narrativa. Os principais deles, além de Meyer e Arbeely são, Mahmoud Saleh, um médico que virou sorveteiro depois de alguns acontecimentos explicados ao longo das páginas; Anna, amiga de Chava; Michael Levy, neto de Meyer; Schaalman, o criador da golem, à pedido de Rotfeld.


Na questão narrativa, o livro é divido em capítulos e poderia ser facilmente dividido em duas partes. Na primeira parte da trama acompanhamos a adaptação dos protagonistas à vida em Nova York, até o momento em que seus caminhos se cruzam. Ao longo da páginas, além de toda a jornada de descoberta dos dois personagens, temos algumas passagens que explicam os acontecimentos até o aprisionamento do Djin mil anos antes e também trechos de um passado não tão distante assim, como os de Saleh e Schaalman, que servem muito bem para dar um plano de fundo aos personagens e confirmar suas importâncias.

Com isso, a autora vai dando pistas da trama que se desenrola lentamente na Nova York do século XX. Apesar do ritmo lento, a grande maioria das passagens que focam no passado de alguns personagens são muito bem justificáveis e possuem sim certa importância no que está por vir. Uma verdadeira preocupação em criar as pontas para na segunda parte do livro começar a amarrá-las.


No que eu chamo de segunda parte do livro, a trama ganha um novo fôlego e a leitura flui de maneira incrível. Enquanto na primeira metade eu levei praticamente uma semana para ler, na segunda dois dias bastaram, considerando que geralmente leio no ônibus à caminho e na volta da faculdade. Esse fôlego renovado se dá principalmente pelo surgimento da ameaça que vinha sendo exposta aos poucos. Não vou contar o que é essa ameaça porque seria um tremendo de um spoiler. O que importa é que a habilidade de Helene Wecker conseguir manter o leitor preso em suas páginas mesmo nos momentos mais lentos é impressionante e fez com que eu me cativasse pela história contada.

Os diálogos entre os personagens é outro ponto que sem dúvida alguma merece destaque. Maiores destaques para Chava e Meyer, Ahmad e Arbeely e, claro, Chava e Ahmad. Os primeiros, por aquele sentimento de descoberta dos personagens, mas que também ilustram bem o que viria a ser o relacionamento entre eles. Algo como pai e filha entre a golem e seu protetor, além de maiores panoramas da natureza dos golens e suas ligações aos desejos e ações, tão intrínseco também a nós, humanos; as conversas com tons bastantes afiados e desafiadores entre o djin e seu chefe-sócio, que rendiam ótimos momentos e mostravam como Ahmad se sentia diante de todas as limitações que afetavam sua liberdade. Já as interações entre os protagonistas possuem todo um ar poético, seja nos conflitos de ideais, ou quando estão conhecendo um ao outro. São os os únicos que podem entender verdadeiramente o que o outro sente.


Golem e o Gênio também é um livro possui em sua essência também o retrato da vida de um imigrante em um país gigantesco onde as dificuldades de se encaixar em uma nova sociedade com tão pouco conhecimento dela está ali, sempre presente, tanto na figura dos dois protagonistas quanto dos personagens secundários, que vivem em comunidades de imigrantes e que, até certo ponto, se mantêm distante da parcela nativa da sociedade nativa, tanto por limitações sociais, culturais, quanto linguísticas. E foi essa capacidade da autora de construir diversos retratos em um único livro que me encantou e fez com que eu gostasse tanto dessa leitura.

Conhecer mais de duas culturas tão diferentes foi fascinante. Conhecer uma obra de fantasia que não tem como sua principal força a própria fantasia foi uma experiência completamente nova e prazerosa. Acompanhar o desenvolvimento de dois personagens tão diferentes foi de encher os olhos.

De encher os olhos também está a edição da DarkSide, com essa capa belíssima e o trabalho gráfico interno naquele padrão psicopata de qualidade.

Leitura mais do que recomendada, não deixem passar a oportunidade de ler essa obra quando estiverem com ela em vista, não irão se arrepender. E uma continuação está em desenvolvimento, mais uma razão para ler! Espero que tenham gostado da resenha, até a próxima.

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