[RESENHA] Precisamos Falar Sobre o Kevin

Autora: Lionel Shriver
Editora: Intrínseca
Páginas: 464
Ano: 2012
Classificação: 2012
Em Precisamos falar sobre o Kevin, Lionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassínio ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive. A vida normal se esvai no escândalo, no pagamento dos advogados, nos olhares sociais tortos.
E aí pessoal. Domingo de carnaval, do qual faço questão de trazer para vocês a resenha de mais uma leitura incrível! O livro dessa vez é “Precisamos Falar Sobre o Kevin”. Vamos lá.


“Precisamos Falar Sobre o Kevin” vai contar a história de uma mãe que busca entender os motivos que levaram seu filho Kevin a cometer um massacre na escola em que estudava. Por meio de cartas, algum tempo após o acontecido, ela comunica-se com Franklin, seu ex-marido.

Nessas cartas passamos por diversas épocas da vida do casal Eva e Franklin, que viveram por anos como aventureiros, principalmente ela, que era dona de uma agência que produzia guias de viagens baratas, portanto, várias vezes no ano precisava viajar para algum país em busca de atualizações para seus guias. Até que chegou o momento em que os dois decidiram dar um passo rumo a maturidade de seu casamento e resolveram tentar ter o primeiro filho. Das tentativas nasceu Kevin, uma criança que desde o momento da primeira amamentação Eva percebeu que não era bem aquilo que ela tinha em mente quando resolveu virar a página e abdicar de uma vida certa e sem muitos percalços para cuidar de um filho.

“Kevin” é um livro que levanta polêmica como um carro levanta poeira em uma estrada de terra. É uma obra que não trata somente de um massacre em uma escola, que resultou em onze pessoas mortas. Trata de uma mãe atormentada por anos tentando entender o filho, que sempre demonstrou indiferença para qualquer coisa na vida e cresceu como uma criança que parecia sentir prazer ao tornar o dia de alguém um verdadeiro inferno. 


Eva tinha uma vida. Após Kevin ela muda completamente. Em suas palavras, nas dezenas de cartas dirigidas a Franklin percebemos uma mulher que muitas vezes parece perdida, que não sabe o que fazer da vida agora que tudo que ela tinha desapareceu. Se ela quis Kevin? Apesar de terem concordado como um casal, Eva nunca teve o desejo pleno de ser mãe e ter que lidar com obrigações que fazem parte dessa fase da vida. Tanto é que em diversos momentos vemos uma mulher que tenta forçar a mente a acreditar que esses momentos são o conto de fadas que muitos de seus amigos diziam que seria com um filho entrando na sua vida.

Franklin, por outro lado, ganhava um brilho nos olhos toda vez que brincava com os filhos de algum conhecido. Então, saber que seria pai foi a maior realização da sua vida. Desde o nascimento de Kevin ficou claro que ele seria aquele que mais seria apegado ao filho, fazendo tudo que estivesse ao seu alcance para tornar a infância do garoto a melhor possível. Quando chega o ponto em que Eva começa a externar seus pensamentos da forma mais sincera que ela poderia fazer, Franklin vê a esposa como perseguidora do filho inocente, que não seria capaz de fazer aquilo que ela tanto insistia como a verdade absoluta. E é vendo as relações “Franklin x Kevin”, “Franklin x Eva” e “Eva x Franklin” que percebemos o quanto ele é estúpido, burro e ingênuo. Claro, tudo faz parte daquela máxima de que os pais nunca vão acreditar no que falam de ruim dos filhos. Franklin era assim, mas Eva, muito pelo contrário.

E Kevin? Nas histórias que Eva conta da sua infância já percebemos sinais do monstro que ele vai ser tornar. E como leitor, assim como sua mãe, tentamos entender o que o levou a tramar a “quinta-feira”, que é como Eva trata o dia do massacre. Franklin sempre passou a mão em sua cabeça. A própria mãe tentou, mesmo que forçadamente, a criar uma ligação com o filho. Mas sua total indiferença não deixou que nenhuma tentativa de fazê-lo ser uma pessoa melhor tivesse um resultado positivo.

Ainda assim não podemos dizer que pelo menos mãe e filho não se entendem. Para falar a verdade, eles se entendem de uma maneira assustadora. Um sabe perfeitamente quem é o outro. Os únicos momentos em que ela se sente como uma mãe na presença dele é quando ela o desafia, contraria, que quase sempre o faz esboçar ao menos um sorriso. A grande diferença do relacionamento de Eva e Kevin é que ela possui uma postura muito mais passiva em relação ao filho do que o contrário. Somente uma vez ela exerceu sua autoridade máxima e seu máximo passou de qualquer limite aceitável. Já ele, não media esforços para provocar a mãe. 


“Precisamos Falar Sobre o Kevin” é uma leitura pesada. Eva muitas vezes assusta com sua frieza em relação aos fatos e a como ela trata o que está acontecendo. Por diversos momentos podemos nos sentir desconfortáveis, tanto pelas atitudes quanto pelo nível de detalhes empregado ao texto de Lionel Shriver, que é outro dos grandes destaques da obra. É uma narrativa que prima por trazer para fora o lado psicológico dos personagens. E por ser completamente em primeira pessoa, também mexe bastante com o nível de credibilidade que podemos dar às palavras de Eva, pelo provável desequilíbrio psicológico da personagem, diante de tudo que lhe aconteceu.

O livro também é uma grande crítica social. Crítica ao papel dos pais na criação dos filhos; à responsabilidade desses pais em relação às atitudes que seus filhos tomam; crítica à sociedade americana como um todo. Como já falei, é um livro que levanta muitas polêmicas e que não tem medo de trazê-las à tona.

Lionel Shriver foi genial ao trazer um texto impecável junto de uma construção dos protagonistas impressionante. Costumo dizer que um livro narrado em primeira pessoa que consegue desenvolver de maneira igual personagens que ficam em segundo plano geralmente são obras que merecem grande destaque. Com “Kevin” não foi diferente. Foi espantoso na verdade, principalmente por se tratar de uma trama sombria, pesada e bastante psicológica. E é justamente do psicológico de Eva que Lionel se apodera para construir o filho que a mãe viu como um estranho por toda a vida. É impossível não enxergar genialidade quando as coisas são vistas por esse ângulo.

E ao seu término ainda ficam as questões que são levantadas ao longo da leitura e que cabe ao leitor responder. Os pais são os culpados? Uma mãe é capaz de odiar um filho? 

Leitura mais do que recomendada. Aqui falei muito mais o básico, já que esse é um livro muito difícil de ser comentado em palavras. Só a leitura vai trazer à tona a dimensão de tudo que ele tem a oferecer. Até a próxima.

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