[RESENHA] Lugares Escuros

Autora: Gillian Flynn
Editora: Intrínseca
Páginas: 352
Ano: 2015
Classificação: 3/5
Libby Day tinha apenas sete anos quando testemunhou o brutal assassinato da mãe e das duas irmãs na fazenda da família. O acusado do crime foi seu irmão mais velho, que acabou condenado à prisão perpétua. Vinte e quatro anos depois, quando é procurada por um grupo de pessoas convencidas da inocência de seu irmão, Libby começa a se fazer as perguntas que até então nunca ousara formular. Será que a voz que ouviu naquela noite era mesmo a do irmão?
Gillian Flynn intercala a trajetória detetivesca de Libby com flashbacks dos acontecimentos do dia do crime com tanta habilidade que o leitor é levado a diferentes direções. Escrito com primor, Lugares escuros não só mostra como a memória é passível de falhas, mas também evidencia as mentiras que uma criança pode contar a si mesma para superar um trauma.
Feliz Ano Novo pessoal! Finalmente de volta com postagens nesse novo ano, que esperamos que seja maravilhoso. E a minha primeira resenha de 2016 é também minha primeira leitura concluída esse ano. Falo do livro “Lugares Escuros” de Gillian Flynn. Então, vamos comigo ver o que achei de mais esta leitura.


Mais um livro da Gillian Flynn, que li no embalo de esperar que pudesse ser pelo menos no mesmo nível de “Objetos Cortantes”, sua primeira obra e que eu ainda não tive a decência de trazer a resenha. A trama segue Libby Day, que aos 7 anos de idade viu a mãe e suas duas irmãs serem brutalmente assassinadas. Nos dias atuais, vivendo uma vida de conformidade, sem rumo, amigos, ou família, a não ser pelo irmão Ben, que foi acusado, inclusive por ela mesma de ter sido o responsável por aqueles terríveis atos.

É no meio dessa vida parada que ela toma conhecimento de um grupo que busca, entre suas atividades, inocentar Ben Day das acusações que o fizeram tomar a pena de prisão perpétua. Agora, Libby, cheia de perguntas tenta deixar seu estilo de vida conformado de lado para entrar de cabeça na investigação do que realmente aconteceu naquele fatídico dia, reviver suas memórias nebulosas e saber, de uma vez por todas se seu depoimento quando criança realmente influenciou tanto na vida que ela leva e nas verdades que sempre repetiu para si mesma, que podem, na realidade, ser grandes mentiras.

Gillian Flynn nos leva para a investigação por diversos pontos de vista. Nos dias atuais temos a busca de Libby pela verdade. No passado temos capítulos de sua mãe, Patty Day, além de Ben, que reconstroem os passos de dois personagens importantes para entender os fatos.


Sim, como eu disse mais acima, eu comecei a leitura de “Lugares Escuros” com certa expectativa, que acabou sendo frustrada. Muito em parte por não sentir na trama a real sensação de mistério e suspense que eu esperava que ele passasse. Não se enganem, a identidade de que essa é uma autêntica narrativa Gillian Flynn ainda está ali, cheia de diálogos fortes e pesados, sexo e sensualidade quando convém, o que nas narrativas da autora pode até ser bastante comum. Além disso há aquela capacidade de conseguir montar cenários sombrios, personagens quase puramente psicológicos e que flertam facilmente com diversas facetas de personalidades, sejam deles próprios ou daqueles que estão envolvidos no mistério, já conhecidos de outras obras da autora. 

O problema é que fora o já conhecido jeito Gillian Flynn de construir suas tramas eu não achei nada mais que pudesse me surpreender. Até mesmo “Garota Exemplar”, o mais óbvio dos livros da autora conseguiu me trazer mais surpresa, apreensão e repulsa por alguns personagens do que “Lugares Escuros”. Fui avançando na leitura na mais pura e simples aceitação de que era desse jeito e pronto. Não foi ruim, foi apenas… ok.

A opção por trazer uma narrativa dividida entre diversos pontos vista e tempos foi, com toda certeza, acertada. É muito interessante chegar em momentos onde sabemos mais da obra do que a própria protagonista. As mentiras dos personagens são as que ficam mais evidentes, quando fatos do passado e presente se misturam para construir a trama. Aqui e ali são jogados alguns fatos para que possamos pescá-los, ainda que, pelo menos eu, quase não tenha conseguido pegar o elemento que dá a principal dica para a maior parte do que aconteceu naquela madrugada. Na verdade, admito que só fui perceber com mais clareza depois de assistir o filme, que por sinal, odiei.

Os personagens foram o de sempre. Não dá para se apegar a nenhum, porque a autora os constrói justamente para que não sejam inocentes o suficiente para se amar. Eles possuem em si uma profundidade muito maior e mais escura e uma maldade própria. Não é por serem protagonistas que os personagens devem ser sempre bonzinhos e Gillian deve repassar em sua mente alguma frase semelhante a essa dezenas de vezes por dia, até que tenha que escrever sua próxima página. 

Libby Day era uma criança “problemática” antes da tragédia e 25 anos depois leva a vida sem se importar com o que está acontecendo ao seu redor. Não se importa de fazer amizade com ninguém, pouco se importa com as poucas pessoas que restam da sua família e é extremamente egoísta. Tem tudo para ser uma protagonista não muito agradável de se acompanhar, mas ao longo da trama sabemos que as coisas não são bem assim, mesmo que no final possamos dizer facilmente "tchau, valeu. "

Ben é visivelmente perturbado e diversas vezes ele só piora sua situação, com as mentiras no presente, quando Libby resolve começar a ir visitá-lo e com seus pensamentos sombrios do passado, quando começou a se envolver com pessoas que não são exemplos a serem seguidos.


Os finais de um Gillian Flynn devem ser pensados justamente para levantar discussões. “Garota Exemplar”, foi duramente criticado por seu final, “Objetos Cortantes” fugiu um pouquinho da onda, ainda assim sendo debatido aqui e acolá e “Lugares Escuros” não fica muito longe disso. Para mim não foi um final de despertar muitos tipos de emoções. Na verdade, eu terminei a leitura exatamente como eu a levei durante todas as páginas, simplesmente aceitando que era só aquilo, daquele jeito e pronto, fechei o livro, guardei e deixei ele esperando para ser resenhado. Somente um ponto do final poderia ter despertado um pouco mais minha surpresa, mas eu achei tudo tão morno que até mesmo a “grande surpresa” só serviu para que eu levantasse as sobrancelhas, erguesse os ombros e fazer com o livro o que eu já disse mais acima. Exatamente esse ponto que eu suspeito que muitos tenham achado que foi um exagero que fosse daquele jeito, por ser algo que apelou demais para o improvável, ainda que estivesse presente ali no livro para o leitor usar como informação (o que deveria ser a graça de se ler um mistério).

No fim das contas, exatamente nesse momento que estou terminando a resenha, eu concluo que foi o livro que eu menos gostei da autora. “Objetos Cortantes” ainda reina como sua melhor obra na minha humilde opinião.

É uma obra que indico, até porque vi bastante gente que sentiu nela o suspense e mistério que eu senti falta durante a maior parte da trama. Então, com certeza haverão mais pessoas que vão ver e sentir no livro aquilo que eu não consegui.

Até a próxima!

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