[RESENHA] A Guerra dos Consoles

Autor: Blake J. Harris
Editora: Intrínseca
Páginas: 576
Ano: 2015
Classificação: 4/5
Tendo como base mais de duzentas entrevistas com antigos funcionários de ambas as empresas, Blake J. Harris revela os guerreiros, as estratégias e os diversos fronts de batalha da grande guerra entre esses colossos do entretenimento eletrônico. Passando por momentos-chave da história dos video games — como a criação do Sonic, os lançamentos dos consoles Mega Drive e Super Nintendo e a chegada do jogo Donkey Kong Country às lojas —, Harris retrata essa indústria de maneira inédita e recria com propriedade a energia e o sentimento de todos os nomes importantes da Sega e da Nintendo. Um verdadeiro thriller que mostra os bastidores de uma batalha épica pelo coração e pelo dinheiro de gamers do mundo inteiro e como tudo isso mudou e marcou definitivamente a cultura pop.
Hoje venho falar de um tema que gosto bastante: história. Mas não é qualquer tipo de história mas sim uma que definiu todo um mercado no mundo inteiro, responsável por movimentar, nos dias atuais, um valor estimado na casa dos 60 BILHÕES de dólares. Estou falando do incrível embate entre Sega e Nintendo. Um verdadeiro confronto de Davi contra Golias e que mudou os rumos da indústria do entretenimento.


O principal tema do livro A Guerra dos Consoles é a intensa disputa entre Sega e Nintendo, que teve início no final dos anos 80 e foi até o fim dos anos 90. O principal foco das duas empresas, depois de um tempo, foi dominar o mercado norte-americano, que estava passando por uma crise que tirava todo o crédito dos jogos eletrônicos, depois que a Atari não conseguiu suportar bem as coisas por lá. A Nintendo aproveitou-se e, após alguns anos, mesmo sem um plano bem definido, lançou o Nintendo Entertainment System (NES), conhecido no Japão como Famicon. Como fruto deste investimento, em pouco tempo a empresa passou a dominar o mercado, com cerca de 85% de participação, adotando uma política extremamente conservadora e que visava mais benefício próprio que daqueles que se associavam à ela. Ainda assim, as grandes empresas de varejo não hesitavam em comercializar os produtos da Big N, já que eles eram lucro certo, apesar das mais diversas limitações que um contrato assinado com eles implicava.

Nesse cenário, a Sega, que antes investia grande parte de seus esforços no público Japonês, percebeu que poderia haver uma oportunidade de bater de frente com a Nintendo no mercado americano, ainda que ela parecesse imbatível e que faltasse muito pouco para Mario e Cia monopolizarem as coisas por aquelas terras. Para isso, correndo o risco de mudar um pouco sua filosofia também conservadora, o que, por sinal, é bem característico de algumas empresas japonesas, o então chefão da Sega, Hayao Nakayama, procurou aquele que ajudaria a empresa a fazer história: Tom Kalinske. Kalinske é, nada mais, nada menos, que o responsável por livrar a Mattel de declarar falência DUAS vezes e, tão impressionante quanto: fazer a Barbie, que estava perdendo seu espaço no mercado de brinquedos infantis, pela falta de inovação, tornar-se o ícone que ela é hoje, com uma imensa variedade de modelos e bem longe de ser esquecida. Querem mais? Ele é um dos idealizadores do He-Man. Deu para perceber o quanto valia o investimento? Tom chegou na Sega sem saber muito do mercado e nem entendendo nada de jogos, mas disposto a enfrentar o maior desafio de sua renomada carreira: fazer a Sega deixar de ser uma empresa desacreditada e bater de frente com a Nintendo. Uma missão impossível? Muito provavelmente. Foi impossível para ele? Não. Sua genialidade se provou a escolha certa para administrar a Sega of America, que mesmo com bastante interferência da sede japonesa da empresa, conseguiu fazer o que ninguém esperava que fosse possível um dia.


E é nesse contexto, Sega versus Nintendo, que acompanhamos tudo que é relatado no livro. O autor tenta criar uma narrativa amigável e que instiga o leitor por dentro do mercado dos games nos anos 80 e 90. O extenso trabalho de pesquisa é evidente e fica claro o quanto de tempo foi investido para reunir todo o material para narrar com precisão uma das maiores brigas entre duas marcas já vistas, como na sinopse, digna de uma Coca-Cola vs Pepsi entre outras. O livro, por sinal, também conta com fotografias de alguns dos momentos importantes das empresas que tiveram suas histórias escritas neste livro. A escrita não é nenhum destaque, mas chama a atenção pela leveza com que as informações são transmitidas, que são abundantes. Blake também faz o leitor sentir toda a tensão da disputa e até mesmo força-nos a escolher um dos lados, ainda que, pessoalmente, eu tenha achado que tudo tenha pendido um pouco mais a favor da Sega, até mesmo por conta do nível de presença que as duas empresas ocupam nas páginas.

O principal foco é a ascensão da Sega e todas as suas estratégias adotadas para derrubar a Nintendo de seu trono. Ficamos conhecendo aos poucos os planos de marketing, o processo que deu vida ao Sonic, o mascote da empresa que chegou para fazer o Mario “comer poeira”. Como eu sou aluno de Publicidade, fui impactado ainda mais por tudo que a empresa, Kalinske e seus principais parceiros investiram para tornar aquilo uma realidade. Uma investida feroz, sem medo, mas ao mesmo tempo inteligente e que moldou a imagem de uma empresa para sempre. Enquanto a Nintendo permanecia conservadora e sem aberturas para diálogo, focando seus produtos como brinquedos para crianças, a Sega se posicionava como uma empresa descolada, que queria unir a família e fazer de seu console, o Genesis, mais do que um brinquedo, usando o Sonic como principal figura dessa nova mudança, aliado à campanha que seria o grande ponto de virada, a famosa “Welcome to the next level” ou “Bem-vindo ao próximo nível”. Pesquisem, apesar de estranha se comparada às campanhas mais atuais, a campanha traduzia exatamente a imagem que a Sega queria adotar.


É claro que o livro não se reserva a falar somente da Sega. A Nintendo tem seu espaço, ainda que menos frequentes ou detalhados. O maior destaque vai para o início dos investimentos nos EUA, algumas polêmicas e tudo aquilo já citado sobre a empresa neste texto. Correndo por fora, temos até mesmo a Sony, com alguns aparecimentos escassos, mas que também tem papel fundamental nesta guerra. Afinal, após a Nintendo cometer um de seus atos mais covardes e provando sua visão unilateral das coisas, ela acabou tornando possível que anos mais tarde, um tal de Playstation chegasse para dar um basta na guerra.

Bom, faltam os personagens, executivos importantes que ajudaram a contar essa história. As principais figuras são Tom Kalinske, Al Nielsen, Shinobu Toyoda, Paul Rioux e Hayao Nakayama, alguns dos grandes responsáveis pelo sucesso da Sega of America, ainda que esse último fosse relutante com certas ações, por ser do lado japonês da empresa. Do lado da Nintendo, tem o visionário Minoru Arakawa, o primeiro presidente da Nintendo of America e o responsável por ter acreditado em um mercado ainda em choque. Entre muitos outros que fazem parte desta história. 

Nos dias atuais, a Nintendo continua investindo tanto em hardware quanto em software, com algumas dificuldades financeiras e conservando boa parte de sua famosa filosofia, enquanto a Sega tem boa parte de seus lucros provenientes daquilo que plantou nos anos 90, agora estando fora do ramo dos consoles e com foco em alguns jogos, fliperamas e máquinas para cassinos. Vale falar que no caso da Sega, nos dias de hoje, a divisão americana da empresa, a responsável por ter colocado ela no topo do mercado por algum tempo, é a que se encontra em maiores dificuldades, enquanto a parte oriental da empresa continua firme. No geral, as duas empresas se mantém forte no cenário, com a Nintendo sendo hoje a terceira grande força, atrás de Sony (Playstation) e Microsoft (XBox) e a Sega em sexto, quando levados em consideração os dados de relatórios divulgados pelas empresas.


O livro é um verdadeiro prato cheio para quem quer mergulhar neste mundo e conhecer um pouco mais do embate que, caso não tivesse ocorrido, provavelmente não veríamos essa indústria como ela é nos dias de hoje. Afinal, Playstation’s surgiram dessa briga e com eles, novas empresas se aventurando e a necessidade crescente de oferecer aos jogadores sempre a melhor experiência. A briga foi feia, mas nós agradecemos bastante por ter ocorrido, além é claro, das lições que podemos tirar das verdadeiras aulas de como crescer através do poder da propaganda e do marketing que a Sega deu na época. 

Leitura recomendada e obrigatórias aos fãs de Nintendo, Sega e dos games em geral. Leitura leve, divertida e sem grandes pretensões a não ser colocar o leitor dentro desse universo. É isso pessoal. Até a próxima!

*Livro cedido por parceria com a Intrínseca

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