[RESENHA] Os Filhos de Anansi

Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Páginas: 328
Ano: 2015
Classificação: 3/5
Charlie Nancy tem uma vida pacata e um emprego entediante em Londres. A pedido da noiva, ele concorda em convidar o pai para seu casamento e fazer uma tentativa de reaproximação, já que há vinte anos os dois não se falam. Enquanto isso, no palco de um karaokê na Flórida, o pai de Charlie tem um ataque cardíaco fulminante. A viagem de Charlie até os Estados Unidos para o funeral acaba se tornando a jornada de uma nova vida. Charlie não tinha ideia de que o pai era um deus. Menos ainda de que ele próprio tinha um irmão. Agora sua vida vai ficar mais interessante... e bem mais perigosa. Embrenhando-se no território de lendas e deuses pagãos, a poderosa narrativa de Neil Gaiman leva o leitor a mergulhar nessa história fantástica e bem-humorada sobre relações familiares, profecias terríveis, divindades vingativas e aves muito malignas.

O tigre era o detentor de todas as histórias, mas Anansi, ardiloso e esperto como ele é, conseguiu tomar todas elas para si. E assim, todas as histórias do mundo passaram a pertencer a ele. E fica a meu cargo, agora, passar a vocês mais uma história desse mundo de histórias, dessa vez, protagonizada não por ele: essa é a história d’Os Filhos de Anansi.


Fat Charlie, ou simplesmente Charles Nancy, está prestes a se casar com Rosie e agora se encontra diante de um grande dilema imposto pela noiva: convidar ou não o mala do seu pai, um cara que passou a vida toda criando as situações mais constrangedoras que o filho se recorda. É a partir dessa decisão que Charlie tem que tomar que sua vida vira de cabeça para baixo, uma expressão bem clichê, sim, mas que resume bem a vida do protagonista a cada decisão que ele toma.

Os Filhos de Anansi é uma das obras mais diferentes que li nos últimos tempos. Uma das coisas que me chamaram a atenção inicialmente foi a proposta de se trabalhar com a mitologia africana, e confesso, mesmo que não conhecendo absolutamente nada sobre ela, me senti completamente imerso, pelo menos dentro do que o Gaiman se propôs a escrever. Ele faz com que o leitor se sinta dentro de suas histórias e isso, acredito, deve vir de muitas outras obras suas e que não deveria ser diferente com essa. O universo da mitologia africana é rico, interessante, selvagem. Gaiman, com sua criatividade, só expande a experiência. Mas acredito que a maior parte do que eu gostei no livro para por aí.

Frustração define o que senti ao lê-lo. Apesar de ele conduzir muito bem o leitor ao longo das páginas, o que só prova o talento de Neil Gaiman em contar histórias, boa parte do que eu li era muito estranho, cheio de coincidências meio difíceis de se engolir.


Os personagens, mais uma vez, foram meus maiores problemas. Charles, Spider (o irmão), Anansi (o pai), Rosie (a noiva) e muitos outros não conseguiram me cativar. O protagonista é ridiculamente conformado com os acontecimentos, possui uma personalidade que faz ele passar despercebido e ignorado, sempre está fazendo o possível para se livrar de todo e qualquer problema e só vai tomar algum jeito quando enfim a história parece tomar um rumo, mas não esperem muita coisa. 

Spider foi quase que insuportável pra mim, com aquele jeito dele de se divertir demais, fazer tudo ao seu bel prazer, inclusive, indiscriminadamente destruindo o noivado do irmão. Charles, ao ver isso, me pareceu muito mais conformado que revoltado, por mais que ele se volte contra o irmão e o confronte por tudo de ruim que acontece com ele ter começado a surgir depois que Spider resolveu aparecer na casa dele. É a partir desses problemas que Charles passa a procurar por meios mágicos de tirar o irmão da sua vida, já que as conversas parecem não resolver nada.

Ainda tem Anansi, que é outro que não é exemplo de personagem mais carismático da literatura, ainda que ele seja uma figura. Sua presença é bastante importante para a trama e também serve para colocar o leitor mais próximo da mitologia africana. Os demais personagens continuam com a pouca profundidade, talvez até menos, ainda que alguns deles sejam interessantes de acompanhar. O maior problema dos personagens secundários, para mim, foi o pouco que eles acrescentam na narrativa principal. Pareceu um meio de render mais linhas para o texto.

Os problemas se desenrolam e Charles é um personagem persistente, com a ideia fixa na cabeça de levar pra frente o que ele desejou depois que viu o irmão destruindo sua vida. Mas ele é um cego no meio de um tiroteio, se metendo em problemas divinos, aceitando tudo sem questionar ou ponderar se aquilo é o certo a fazer ou um problemão. A ingenuidade dele chegou a dar dó em certos momentos.


O livro, no geral é interessante, principalmente pela mitologia africana e até mesmo o famoso humor inglês, que não funcionou muito comigo, mesmo rendendo alguns momentos engraçados. Os elementos do gênero fantástico também estão bem inseridos e utilizados de uma forma muito diferente, louca, estranha, bizarra, o que torna tudo um pouco mais interessante. Gostei do desfecho, principalmente por unir as pontas soltas e tentar dar mais sentido à presença de personagens secundários dispensáveis. Mas a expectativa me derrubou outra vez e, mesmo com toda a riqueza de detalhes acerca de uma mitologia desconhecida e o talento do autor para contar suas histórias, a simplicidade do resto fez com que o livro não me conquistasse tanto quanto eu esperava 

Os Filhos de Anansi vale muito a pena para quem quer se aventurar em uma mitologia desconhecida do público leitor, então, é válido sair pesquisando mais sobre as lendas africanas e os mistérios das histórias de Anansi. 

É isso pessoal! Até a próxima.

*Livro cedido por parceria com a Intrínseca

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