[RESENHA] CHAMADO RADICAL



Autora: Bráulia Ribeiro
Editora: Editora Ultimato
Páginas: 173
Ano: 2007
Classificação: 5/5

"Chamado Radical narra a emocionante história da autora, que, aos dezessete anos, abraçou o desafio de se embrenhar na selva amazônica, com a Bíblia na mão e uma ideia na cabeça, para falar de Deus nos lugares mais longínquos do país."

Bem-vindos a um dos meus livros favoritos! Qual imagem vem a sua cabeça quando você ouve a palavra missionário? Um "jesus" dos tempos de hoje? Um mochileiro qualquer meio sem noção? Um oportunista? Quem sabe um pouco de cada, se oportunista for somente aproveitar as oportunidades a vista. Mas sabemos todos que existem casos que a ética pode ser jogada fora mesmo se o indivíduo estiver com a bandeira de servir às causas mais nobres. Eu como alguém que admira pessoas com causas nobres e tendo bastante convivência no meio cristão sei que coisas acontecem, apesar de não saber mensurar a disso. Sei que se ocorresse uma vez somente, seria o suficiente para um grito de "BASTA!".

Mas e se...

E se, por um segundo, apesar do nosso crescente pessimismo com relação a realidade atual, em que se pode usar a bandeira do amor, seja ela da cor que for, para cravar nossa opinião no crânio de quem não concorde conosco. Não adianta lançar indiretas quando sei que infelizmente, agi assim, por mais vezes que gostaria de admitir. Mas continuando, e se, por um segundo, uma faísca de esperança brilhasse. E se, houvessem pessoas que apesar da sua pouca noção, com uma mochila gigante e pesada nas costas, aproveitasse a oportunidade de levar o Jesus que eu conheci, e venho conhecendo, para trazer valor e dignidade para as pessoas. Quando digo valor e dignidade, não falo de cânones, falo de fazer a pessoa se sentir amada, e ser cuidada no que precisar e for possível para o mochileiro "non-sense" mas que carrega esse Jesus dentro de si, aproveitar a oportunidade de levar amor a povos que divagam a deriva da nossa negligência, indiferença ou até senso de superioridade (que é ridículo, eu sei, calma). Não dá pra fazer uma resenha menos pessoal, porque também estamos entrando não só estamos a passeio pelas veias e coração do livro, como as minhas próprias. Então por favor, tenham um pouco só de paciência, ou compaixão, ou um pouco dos dois para comigo. É possível que venham divagações...

Eu não estava preparada para ler "Chamado Radical", a começar temos as aventuras e sofrimentos reais de uma missionária que está começando a entender o que é ser missionária, e apenas 17 anos de idade se mete no meio da mata, para o contato com diversas tribos indígenas isoladas, algumas extremamente perigosas. O livro não superou minhas expectativas, eu não sabia o que esperar, e mesmo que criasse. "Chamado Radical" fez algo melhor, me deu algo fora das expectativas e diferente do que minha capacidade mental esperava (ou talvez eu seja newbie pra tudo na vida mesmo). Braulia Ribeiro é no mínimo provocante, no máximo vai bugar sua mente contra paradigmas que talvez tenhas ou não consciência que existam.


O livro tem bem forte essas 6 características: 
O relato de histórias reais sobre a experiência de missionários jovens com povos isolados e todos seus perigos, como ataques dos índios e não-índios, doenças, bichos da mata. 
O contexto de cada personagem/pessoa retratado em cada história. Toda história forja as pessoas, e a respostas que essas dão a história vão levando o processo colaborativo de viver uma experiência interessante e que leva a empatia e compreensão. 
Críticas para as formas tradicionais de missão, convidando para uma troca cultural que favoreça servir a comunidade mais que criar uma relação paternalista (ouch). 
Coisas que podemos ou não concordar. 
Outras coisas que podemos ou não entender. 

Os dois últimos não vou dizer, acho melhor que você veja por si próprio, e depois me diga o que achou. 

De qualquer forma, mesmo que você não queira saber disso, e bata na madeira três vezes ao ver uma bíblia (ahah, engraçado imaginar isso, me desculpe). Eu te desafio a ler "Chamado Radical" pelo que o subtítulo diz: "Não existem níveis seguros para o consumo dessa substância". Vivemos num país com a influência de diversas crenças, tendo a cristã um peso maior, muitas vezes um peso de legado, outras vezes opressor (sinto muito por isso). Pelo menos para se ver como num espelho, esse livro eu recomendo. E acredite (ou não), a parte me vi clara como reflexo na água de um rio ou igarapé, foi a descrição de como cada tribo se percebia. O que também é colocado no livro. Me vi com o forte apreço pelo que vem de fora e desapego com o que é nosso, e o complexo de inferioridade que em potencialidades diferentes afetam o meu coração brasileiro pra que muitas vezes eu esqueça de mim, me rejeite, porque eu não sou o colonizador, sou o resultado de muitos encontros, desencontros e contradições. Se você tiver coragem suficiente, pode se dar algum tempo para se olhar nesse espelho. E depois se perguntar se gosta do que vê, e que se existisse um Deus que me amasse tanto como dizem, será que era isso que Ele queria que visse. Não seria mais útil me ver e valorizar como sou, com minhas cores, cabelos, costumes, hábitos, com roupa ou sem? O livro aborda tudo isso, e defende claramente que as cultura (boa concordância Jê!), diversidade de cada etnia deve ser abraçada e protegida, foi uma das coisas mais lindas que vi até agora.


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