[RESENHA] O Circo Mecânico Tresaulti

Autora: Genevieve Valentine
Editora: DarkSide Books
Páginas: 320
Ano: 2013
Classificação: 4/5
Em pleno cenário pós-apocalíptico, O Circo Mecânico Tresaulti ergue sua lona e dá início ao grande espetáculo. Ambientado sobre a perigosa superfície de um mundo devastado, cheio de bombas e radiação remanescentes de uma guerra pela qual todos já saíram derrotados, este belo romance nos apresenta uma caravana circense em eterna viagem através de muitas cidades sem país, região ou rota definida. Lugares que podem não mais existir quando o circo retornar. Aqueles que se juntam ao circo procuram segurança, trabalho sem risco de vida ou apenas uma nova forma de recomeçar. E seguir adiante, apesar de tudo.
Voltei! Mais uma resenhas das muitas que tenho. O livro de hoje é a grande surpresa “O Circo Mecânico Tresaulti”. Uma surpresa por que ele é bem diferente de qualquer leitura voltada à fantasia que eu tenha feito nos últimos anos e ele se torna melhor ainda quando temos a felicidade de ser surpreendido com a qualidade da história contada.


O livro narra a jornada do Circo Mecânico em um mundo pós-apocalíptico, assolado por guerras, devastado e com lembranças nos corpos e na vida das pessoas dos terrores sofridos nos desastres. Nas andanças o circo passa por cidades do mundo que tem esse cenário, poucas delas mantiveram suas principais características anteriores às bombas radioativas que deixaram tudo em ruínas, poucas são as que tentam se reerguer em um cenário desfavorável e muitas são as que nem existem mais. A comitiva passa por cada cidade sabendo que aquela pode ser a primeira e última vez que passam por ali, porque ela pode não existir mais na próxima vez que estiverem passando por aquele local. 

O grande atrativo do circo é o quanto seus componentes são capazes de hipnotizar a plateia a cada número realizado. Cada movimento no trapézio, cada vôo com as “Asas”, o risco iminente de uma queda que dá lugar ao alívio, que torna o espetáculo do Tresaulti ainda maior e deixa os espectadores sem respirar. Os personagens que promovem essas reações ainda assim não precisam disso para deixar as pessoas das cidades maravilhadas, assustadas ou com medo, pois basta uma olhada naquelas pessoas curiosas do circo para perceber suas principais características: praticamente todos eles tem uma parte do corpo que é mecânica. Pé, perna, braço, asas, ossos, seja que parte do corpo for, todas as atrações são modificadas pela sua principal força e líder, Boss, uma mulher que aparenta ter vivido o suficiente para conhecer à fundo os problemas do mundo e que possui habilidades únicas para transformar aqueles que antes tinham tudo para não ter mais razão ou chances de viver em pessoas mecânicas.


A maioria dos personagens presenciaram a guerra de muito perto, chegando até mesmo a tomar parte nas batalhas. Para ter uma vida mais segura, menos risco de vida, eles entraram para o circo e aceitaram todas as mudanças que Boss impôs para que eles fizessem parte da curiosa trupe.

A principal característica de O Circo Mecânico Tresaulti não é nos contar uma história fechadinha do início ao fim. A verdadeira história é a essência de cada atração do circo, suas vidas, seus problemas, como eles chegaram ali e do que tiveram que abrir mão para ser um homem ou mulher com partes mecânicas no corpo. Todos eles são unidos, como uma família. Andam de cidade em cidade tentando levar esperança às pessoas, que mal sabem que provavelmente não estarão vivas quando ele passar outra vez. Usam seus corpos mecânicos para fazerem coisas que um corpo normal nunca seria capaz de realizar, graças às mudanças feitas por Boss. Mudanças essas que podem se tornar uma ameaça caso o "homem do governo" consiga pôr a mão na magia que a dona do circo é capaz de realizar. Seus planos? Força bélica. Por isso o circo está sempre em movimento, nunca ficando muito tempo em um mesmo local ou voltando uma segunda vez para uma mesma cidade.


Os personagens são complexos, mas a autora os retrata de uma maneira tão distinta do normal que toda a complexidade deles é facilmente compreendida e praticamente nos obriga a criar um laço com aqueles que tem as histórias mais comoventes, até mesmo não gostar de outros que são igual e genialmente escritos. Essa aproximação dos personagens é forte pelo motivo de a autora não deixar o lado humano deles de lado. Cada um deles possui suas próprias ambições, vontades e conflitos com outros membros do circo, por mais que juntos eles sejam uma família.

Little George é o mais protagonista da história. Ele não é uma atração do circo, ficando apenas na bilheteria e servindo como assistente em diversas situações. Ainda assim, ele aguarda ansiosamente o dia em que Boss vai chamá-lo ao seu trailer e lhe dar uma parte mecânica, mesmo que há anos ele esteja esperando por esse chamado. A maior parte da narrativa é feita pelo ponto de vista dele, que sabe de tantos detalhes sobre tantos personagens simplesmente por ouvir as histórias que Boss lhe conta. Por sinal, a relação entre os dois chega a ser, em alguns momentos mais evidentes dentro da trama, uma relação de mãe e filho, ou professor e aprendiz, depende do ponto de vista do leitor. Essa conexão fica ainda mais evidente após alguns acontecimentos do meio para o final do livro.


Outro personagem de destaque é Alec, que está presente durante praticamente todos os capítulos, seja ele um motivador ou o estopim para muitos dos conflitos que envolvem a vida no Tresaulti. O personagem era o detentor das Asas e a principal atração do circo durante muito tempo. Seus vôos sobre o picadeiro faziam a plateia ficar inteira em silêncio, para escutar a melodia emitida pela vibração das penas metálicas de suas asas, que promovia um momento sem comparações todas as vezes em que ele executava seu número. Um dia, porém, ele caiu, contra toda e qualquer certeza de que ele nunca cairia. A consequência? Sua morte (um spoiler? sim e não, talvez. Ele já está morto quando a história começa e sua participação acontece por meio de lembranças dos outros personagens).

Outros personagens são igualmente importantes para a história, porém se eu for falar de todos eles a resenha vai ficar maior do que já está ficando. Vou só dar uma passada rápida por eles. Além de Boss, Little George e Alec, temos Bird, uma das personagens que quer ser a nova detentora das “Asas”; Elena, que se bem entendi, é irmã de Alec e contra a ideia de ter uma nova pessoa com as “Asas”, sem contar que ela tem uma mente maléfica, mesmo que a maldade esteja mais em suas palavras que em suas ações, dentro do circo ela é trapezista; Stenos, parceiro dos números de equilíbrio de Bird e também quer as “Asas”. Temos ainda Ayar, dos números de força; os trapezistas, com Big Tom, Big George, Ying; Os Irmãos Grimaldi, os saltadores; Panadrome, o músico e o personagem mais mecânico de todo o circo, restando poucas coisas além de sua cabeça para dizer que um dia ele foi humano. Talvez essa tenha sido a maior proeza de Boss e também algo que lhe incomoda a mente frequentemente, por motivos apresentados durante a leitura; por fim, Jonah, o homem mecânico.


A escrita de Genevieve Valentine é repleta de magia, de descrições detalhadas sem ser chato. Por vezes confusa, a história narrada se mantém na qualidade e vai crescendo ao longo das páginas, transformando a confusão do início em maravilhamento ao longo dos belos trechos. Acontecimentos do passado, presente e futuro, caracterizando os personagens e nos inserindo na história do agora estão ali a todo momento, que se amarram em uma grande demonstração de habilidade ao contar uma história. Por mais que a melancolia, tristeza e outros sentimentos estejam mais presentes que a alegria, o final encanta por resumir toda a beleza que a obra quis passar com seus personagens e as situações ao longo de suas vidas. Mesmo que o final seja fechadinho, fica neste leitor a vontade de quero mais. O mundo retratado, os personagens e a magia desta terra devastada e sofrida merecem ser descobertos mais uma vez.


A edição da DarkSide, como vocês já estão cansados de ver nas minhas resenhas de seus livros, está impecável. Um trabalho de diagramação incrível, com belíssimas ilustrações de Wesley Rodrigues, que dão mais vida à essa obra. Um livro para ser admirado enquanto é lido. Uma história contada e escrita de uma maneira diferente mas que conquista justamente por suas diferenças com outras obras da literatura fantástica. Leitura mais que recomendada. 

É isso, até a próxima!

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